Por Matheus Santos
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1 de fevereiro de 2026
O TDAH no adulto é um dos transtornos mais subdiagnosticados na prática clínica. Durante muitos anos, foi tratado como um problema exclusivo da infância, algo que a pessoa "superava" com a idade. A realidade é muito diferente: estudos mostram que cerca de 60% das pessoas diagnosticadas na infância continuam apresentando sintomas significativos na adultez. E uma parcela ainda maior chegou à adultez sem jamais ter recebido um diagnóstico, carregando durante toda a vida a sensação de que "algo está errado comigo". Para o profissional que trabalha com intervenções cognitivas e comportamentais, o TDAH no adulto representa um desafio clínico muito específico. Não é sobre aplicar o protocolo padrão da TCC e esperar que funcione da mesma forma que em outros transtornos. O TDAH afeta diretamente a capacidade do paciente de manter atenção, organizar pensamentos,FollowUp tarefas e manter consistência ao longo do tempo, justamente as habilidades que o tratamento psicológico exige. A intervenção precisa ser estruturada de forma que leva em conta essas limitações desde o início. Neste texto, vai encontrar uma abordagem detalhada sobre como avaliar, formular e intervir no TDAH adulto usando a TCC com adaptações específicas e precisão clínica. Como o TDAH se Apresenta na Adultez A apresentação do TDAH na adultez é muito diferente da apresentação na infância. Na criança, o TDAH frequentemente se manifesta como agitação física muito óbvia: a criança não consegue ficar sentada, corre por todos os lugares, fala sem parar. No adulto, a hiperatividade muitas vezes se transforma em agitação interna: o paciente sente a mente acelerada, não consegue descansar, começa muitas coisas sem finishing nenhuma. Os sintomas mais comuns no adulto incluem dificuldade de manter atenção em tarefas monótona ou repetitivas, grande dificuldade de organizar a vida diária, procrastinação crônica, sensação constante de estar sempre atrasado, impulsividade em decisões, e dificuldade de manter relacionamentos estáveis por causa da distração ou da impaciência. Um elemento muito importante da apresentação do TDAH no adulto é a dificuldade com as funções executivas. Não se trata apenas de não conseguir prestar atenção. Trata-se de uma dificuldade muito ampla com o planejamento, a organização, a priorização, o controle de impulsos e a regulação emocional. Essas são funções que governam praticamente todas as áreas da vida adulta: trabalho, relacionamentos, finanças, saúde. A Avaliação: Como Confirmar o Diagnóstico na Adultez A avaliação do TDAH no adulto é um processo que envolve mais do que um único instrumento. Ela precisa combinar entrevista clínica detalhada, instrumentos de autorelato e, em muitos casos, avaliação neuropsicológica para confirmar o perfil cognitivo. O texto Avaliação neuropsicológica no TDAH: critérios, instrumentos e interpretação clínica oferece um referencial muito detalhado sobre como estruturar essa avaliação com precisão. E para compreender melhor como as funções do desenvolvimento cognitivo se modificam ao longo da vida, o texto Neuropsicologia do Desenvolvimento: o que todo psicólogo clínico precisa saber oferece um contexto muito útil. A Estrutura Cognitiva: O que está por Trás do TDAH Além dos Sintomas Muitos adultos com TDAH chegam à clínica não apenas com os sintomas do transtorno, mas com um histórico longo de experiências negativas que moldaram a forma como eles se veem. Anos de comparação com pessoas que "conseguem tudo mais fácil", críticas de professores, familiares e parceiros, sensação crônica de falhando em áreas básicas da vida. Tudo isso tende a gerar uma estrutura cognitiva muito carregada. Os pensamentos automáticos mais comuns no TDAH adulto giram em torno de três eixos. O primeiro é a desvalorização de si mesmo: "Não tenho disciplina", "Sou incapaz", "Todo mundo consegue, eu não". O segundo é a catastrofização sobre as consequências: "Vou perder o emprego", "Ninguém vai me suportar", "Vou arruinar tudo". O terceiro é a generalização negativa: "Sempre foi assim e sempre vai ser", "Não adianta tentar". Para identificar esses pensamentos com precisão na entrevista e nas sessões, o texto O Que São Pensamentos Automáticos e Como Identificá-los na Prática Clínica oferece uma abordagem muito direta. E para trabalhar as crenças mais profundas que sustentam essa estrutura, o texto Como Trabalhar Crenças Centrais com Técnicas Baseadas em Evidências na TCC apresenta um caminho detalhado. Formulação do Caso: Mapeando o TDAH Além do Diagnóstico A formulação do caso no TDAH adulto precisa ir muito além de confirmar o diagnóstico. Ela precisa mapear como os sintomas do TDAH interagem com a vida específica do paciente: quais áreas estão sendo mais afetadas, quais estratégias de compensação o paciente já desenvolveu ao longo dos anos, e quais consequências emocionais e relacionais esses sintomas estão gerando. Uma formulação bem estruturada no TDAH adulto frequentemente revela que o problema não é apenas a atenção ou a organização em si. É o ciclo que se organiza ao redor desses sintomas: o fracasso repetido gera baixa autoestima, a baixa autoestima gera desmotivação, a desmotivação gera mais dificuldade para organizar e concluir tarefas, e isso confirma a crença de que "não é capaz". O texto Formulação de caso na TCC: como organizar informações para intervenções eficazes oferece um modelo que pode ser adaptado diretamente ao contexto do TDAH. Adaptações Essenciais na Estrutura do Tratamento O tratamento do TDAH adulto com TCC exige adaptações na própria estrutura do processo terapêutico. Como o paciente tem dificuldade com atenção, organização e memória, a sessão precisa ser estruturada de forma que compensa essas dificuldades desde o início. Isso significa que cada sessão precisa ter uma estrutura muito clara e previsível. Agenda explícita no início, resumo no final, tarefas de casa muito específicas e pequenas, e formas de monitoramento que não dependam de uma memória perfeita. Usar ferramentas externas como aplicativos, lembretes e registros escritos não é uma adaptação facultativa, é parte do protocolo. Para compreender como estruturar cada sessão de forma que o paciente com TDAH consiga acompanhar o processo, o texto TCC na prática clínica: como é uma sessão passo a passo oferece um referencial útil sobre a estrutura padrão que precisa ser adaptada. Objetivos Terapêuticos: Como Definir Metas que Funcionam no TDAH Definir objetivos terapêuticos claros é sempre importante na TCC, mas no TDAH adulto é especialmente crítico. O paciente com TDAH tende a ter objetivos muito vagos e muito grandes: "Quero organizar minha vida", "Quero ser mais disciplinado". Esses objetivos são impossíveis de medir e facilmente geram frustração. A intervenção precisa transformar esses objetivos grandes em metas muito pequenas, muito específicas e muito mensuráveis. Em vez de "organizar minha vida", o objetivo pode ser "usar o aplicativo de agenda todos os dias por duas semanas". Em vez de "ser mais disciplinado", pode ser "completar uma tarefa específica antes das 18h três vezes na semana. O texto Como construir objetivos terapêuticos claros em TCC: critérios SMART para a prática clínica baseada em evidências apresenta como estruturar essa definição de forma que ela funcione na prática. Psicoeducação: Mudando a Forma como o Paciente se Vê A psicoeducação no TDAH adulto tem um papel muito importante que vai além de explicar o transtorno. Ela funciona como uma forma de quebrar o ciclo de culpa e desvalor que a maioria dos adultos com TDAH carrega há anos. Explicar que o TDAH é um transtorno neurodevelopmental com base genética e neurobiológica, que não é causado por falta de vontade ou por preguiça, e que a dificuldade que o paciente sente não é um defeito de caráter, pode ser uma das intervenções mais transformadoras do início do tratamento. O texto Psicoeducação em TCC: como utilizar de forma estratégica na prática clínica apresenta como estruturar essa fase com precisão. E o texto Como a psicoeducação fortalece o vínculo terapêutico na TCC oferece como essa fase também fortalece a relação terapêutica desde o início. Tarefas de Casa: Como Estruturá-las para o TDAH As tarefas de casa são uma parte central do protocolo da TCC, mas no TDAH adulto elas precisam ser estruturadas de forma muito diferente da forma padrão. Uma tarefa vaga como "monitorar seus pensamentos ao longo da semana" é praticamente impossível de executar para alguém com dificuldade de atenção e organização. No TDAH adulto, cada tarefa de casa precisa ser muito pequena, muito específica, com um prazo muito claro, e com alguma forma de lembrança externa. Em vez de "monitorar pensamentos ao longo da semana", a tarefa pode ser "quando o alarme toca às 12h, escrevo um pensamento que tive esta manhã no caderno". Essa estrutura reduz ao mínimo a dependência da memória e da organização espontânea do paciente. O texto Tarefas de casa na TCC: como propor e manter a adesão apresenta como estruturar tarefas de forma que elas realmente sejam executadas, e oferece estratégias que se aplicam especialmente bem ao contexto do TDAH. Reestruturação Cognitiva: Trabalhando os Pensamentos sem Perder o Fio A reestruturação cognitiva no TDAH adulto precisa ser conduzida com duas adaptações importantes. A primeira é a velocidade: o paciente com TDAH pode perder o fio da conversa se o terapeuta se dedica muito tempo em uma única tarefa cognitiva. A segunda é a estrutura: usar registros escritos e ferramentas visuais para que o paciente não dependa apenas da memória para lembrar o que foi trabalhado na sessão. Uma abordagem muito eficaz é usar o registro de pensamentos de forma muito estruturada, com colunas claras e instruções passo a passo, e revisar esse registro no início de cada sessão antes de avançar para novo conteúdo. O texto Reestruturação cognitiva passo a passo: um guia para terapeutas apresenta como conduzir essa fase com técnica, e o texto As 10 distorções cognitivas mais comuns na clínica oferece um referencial para identificar as distorções mais presentes no TDAH adulto, especialmente a catastrofização e a generalização negativa. Regulação Emocional: Um dos Maiores Desafios do TDAH Adulto A dificuldade de regulação emocional é um dos aspectos menos discutidos do TDAH adulto, mas é um dos que gera mais sofrimento na vida do paciente. A pessoa com TDAH tende a ter emoções muito intensas que chegam muito rápido e que é muito difícil de controlar. Isso pode levar a conflitos relacionais, decisões impulsivas e uma sensação crônica de estar "fora de controle". Trabalhar a regulação emocional no TDAH adulto não significa apenas ensinar técnicas de relaxamento. significa ajudar o paciente a reconhecer os gatilhos emocionais, a identificar o que está acontecendo no momento em que a emoção surge, e a ter um plano concreto e muito estruturado para lidar com esses momentos antes de agir impulsivamente. O texto Estratégias de regulação emocional na TCC: técnicas fundamentadas e aplicações clínicas apresenta como estruturar essa parte da intervenção de forma que ela se encaixe na estrutura adaptada do tratamento. Motivação e Engajamento: O Grande Desafio Clínico A motivação é talvez o maior desafio clínico no tratamento do TDAH adulto. O paciente com TDAH tende a ter uma relação muito complicada com a motivação: ele consegue se engajar intensamente com coisas que são novas ou estimulantes, mas perde rapidamente o interesse quando a tarefa passa a ser rotina. Isso significa que o terapeuta precisa estar atento ao engajamento do paciente ao longo de todo o tratamento, não apenas no início. Se o paciente começa a faltar às sessões, a não fazer as tarefas ou a parecer desinteressado, isso não é necessariamente resistência no sentido clássico. pode ser o padrão do TDAH funcionando. O texto Motivação para a mudança na TCC: como identificar ambivalência e aumentar o engajamento terapêutico apresenta estratégias para trabalhar a motivação de forma que ela se mantenha ao longo de todo o processo. Monitoramento e Ajuste ao Longo do Tratamento No TDAH adulto, o monitoramento do progresso é especialmente importante por duas razões. A primeira é que os resultados podem flutuar muito dependendo do nível de estresse ou da quantidade de exigências que o paciente está enfrentando em cada momento. A segunda é que sem monitoramento externo, tanto o terapeuta quanto o paciente tendem a perder a noção de o que foi alcançado até o momento. Usar instrumentos curtos e estruturados no início de cada sessão para revisar o estado atual do paciente não é apenas bom protocolo, é necessário no contexto do TDAH. O texto Monitoramento de progresso em TCC: como acompanhar resultados clínicos e ajustar intervenções ao longo do tratamento oferece como estruturar esse monitoramento de forma contínua e útil. Prevenção de Recaídas no TDAH Adulto O TDAH é um transtorno crônico. Isso significa que o objetivo do tratamento não é eliminar os sintomas de uma vez por todas, mas sim ajudar o paciente a desenvolver estratégias que permitam ele funcionar de forma mais eficaz apesar dos sintomas. A prevenção de recaídas no TDAH adulto é mais sobre consolidar hábitos e estratégias do que sobre evitar que algo specific aconteça. O plano de prevenção de recaídas precisa incluir as estratégias de organização que o paciente aprendeu, os sinais de que ele está entrando novamente em um ciclo de desorganização e desvalor, e as ações concretas que ele pode tomar quando perceber esses sinais. O texto Estratégias de prevenção de recaídas em TCC: consolidando ganhos e aumentando a autonomia do paciente oferece um caminho estruturado para planejar essa fase. O TDAH e a Comorbidade com Outros Transtornos O TDAH adulto muito frequentemente coexiste com outros transtornos. Ansiedade, depressão e dificuldades no relacionamento interpessoal são comorbidades muito comuns. Em alguns casos, o paciente chegou à clínica com um diagnóstico de ansiedade ou depressão, e o TDAH foi identificado apenas mais tarde como um processo que estava alimentando essas outras apresentações. Quando há comorbidade, a intervenção precisa considerar todos os processos presentes. Os textos Ansiedade Social (Fobia Social): Como Diagnosticar e Intervir na Prática Clínica com TCC e Transtorno do Pânico e TCC: Como Trabalhar o Medo do Medo na Prática Clínica oferecem abordagens detalhadas sobre como trabalhar esses processos quando eles coexistem com o TDAH. Formação e Desenvolvimento Contínuo O tratamento do TDAH adulto com TCC é um dos contextos onde a capacidade do terapeuta de adaptar o protocolo à realidade do paciente faz a maior diferença nos resultados. Estruturar sessões adaptadas, propor tarefas que sejam realisticamente executáveis e manter o engajamento ao longo de um tratamento mais longo são habilidades que se desenvolvem com prática orientada e supervisão qualificada. Se você quer aprofundar sua habilidade de trabalhar com TDAH e outros transtornos que exigem adaptações específicas na TCC, a Formação Permanente do IC&C oferece um caminho estruturado para esse desenvolvimento, com supervisão, casos comentados e conteúdo baseado nas últimas evidências científicas. E se você ainda não assistiu ao nosso webinário gratuito com a Dra. Judith Beck e a Professora Vivian Bueno , é uma oportunidade muito valiosa para ver como a aplicação da TCC pode ser adaptada com precisão em casos que exigem flexibilidade como os de TDAH adulto. Judith Beck é uma das maiores autoridades mundiais em TCC, e a conversa oferece insights muito difíceis de encontrar em outro lugar. Conclusão O TDAH adulto é um dos transtornos onde a TCC precisa ser mais cuidadosamente adaptada para funcionar. O protocolo não muda na sua essência, mas a forma como é aplicado precisa levar em conta as dificuldades de atenção, organização e regulação emocional do paciente desde a primeira sessão até o encerramento. Quando isso acontece, a TCC oferece ao adulto com TDAH algo muito valioso: não apenas estratégias práticas para organizar a vida, mas também uma compreensão mais gentil de si mesmo que substitui anos de autocrítica e desvalor. Como profissional que atua em intervenções cognitivas e comportamentais, aprender a adaptar a TCC ao TDAH adulto é uma habilidade que amplifica significativamente o alcance da sua prática clínica. Os pacientes que chegam à sua clínica com esse diagnóstico frequentemente já passaram por anos se sentindo que são os únicos que não conseguem. O tratamento que você oferece pode ser o início de uma relação muito diferente com as próprias capacidades.