O século XIX e a psicopatologia: a grande dicotomia entre organicismo e psicogênese e o nascimento da classificação psiquiátrica
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O século XIX representa um dos momentos mais férteis e complexos da história da psicopatologia. É nesse período que a psiquiatria se consolida como campo científico, mas também se fragmenta em debates teóricos profundos que moldariam toda a prática clínica posterior.
De um lado, desenvolve-se uma perspectiva organicista, que busca explicar os transtornos mentais exclusivamente a partir de alterações cerebrais e degenerativas. De outro, emerge uma revolução psicogênica, demonstrando que fatores psicológicos e experiências de vida podem produzir sintomas intensos, duradouros e incapacitantes.
Essa tensão produtiva cria o cenário ideal para o surgimento da classificação psiquiátrica moderna, tema central do texto pilar Psicopatologia, diagnóstico e classificação dos transtornos psiquiátricos.
A corrente organicista e a busca por causas biológicas
A primeira grande vertente do século XIX foi a corrente organicista, profundamente influenciada pelo avanço das ciências naturais e pela medicina anatomoclínica.
Entre seus principais representantes está Bénédict Morel, que defendia a ideia de degeneração hereditária. Segundo essa perspectiva, os transtornos mentais seriam manifestações progressivas de uma deterioração biológica transmitida ao longo das gerações.
Embora hoje reconhecido como reducionista, o modelo organicista teve um papel histórico importante ao:
- afastar definitivamente explicações sobrenaturais
- inserir a psiquiatria no campo da medicina científica
- estimular a busca por bases neurobiológicas do sofrimento psíquico
Esse movimento inaugura uma tensão que ainda atravessa a clínica contemporânea: até que ponto o sofrimento mental pode ser explicado apenas por alterações orgânicas?
A revolução psicogênica e o nascimento da causalidade psicológica
Em oposição ao reducionismo biológico, um grupo de pensadores começa a demonstrar que processos psicológicos podem gerar sintomas tão intensos quanto os produzidos por doenças orgânicas.
Charcot e a histeria como fenômeno clínico
No Hospital da Salpêtrière, em Paris, Jean-Martin Charcot revoluciona a compreensão dos sintomas conversivos. Utilizando hipnose, Charcot demonstra que paralisias, convulsões e alterações sensoriais poderiam ser produzidas e removidas por sugestão.
Esse achado tem impacto profundo: sintomas físicos podem ter origem psicológica. Surge, assim, o conceito de histeria, marco fundamental na diferenciação entre transtornos neurológicos estruturais e transtornos funcionais.
Pierre Janet e a teoria da dissociação
Avançando essa compreensão, Pierre Janet desenvolve a teoria da dissociação. Para Janet, experiências traumáticas poderiam fragmentar a consciência, produzindo sintomas que escapam ao controle voluntário do indivíduo.
Sua contribuição inaugura conceitos fundamentais para a psicopatologia moderna, como:
- automatismos psicológicos
- falhas de integração da consciência
- relação entre trauma e sintoma
Essas ideias permanecem centrais em modelos contemporâneos de compreensão do trauma.
Sigmund Freud e a psicogênese das neuroses
A revolução psicogênica atinge seu ponto mais influente com Sigmund Freud. A partir de sua experiência com a histeria, Freud desenvolve a psicanálise, aprofundando a compreensão dos sintomas como expressão de conflitos internos.
Entre suas principais contribuições estão:
- o conceito de inconsciente
- a noção de conflito psíquico
- os mecanismos de defesa
- a compreensão das neuroses como resultado da história de vida
Com Freud, o sofrimento psíquico passa a ser entendido como produto de dinâmicas internas complexas, deslocando definitivamente o foco exclusivo da biologia.
Emil Kraepelin e a revolução classificatória
Enquanto o debate entre organicismo e psicogênese se intensificava, Emil Kraepelin promove uma revolução silenciosa, porém decisiva.
Kraepelin desloca a atenção das causas para o curso clínico e o prognóstico. Ao observar pacientes ao longo do tempo, percebe que sintomas semelhantes podem evoluir de maneiras radicalmente diferentes.
A partir dessa observação longitudinal, ele propõe uma distinção que se tornaria fundacional:
- Demência Precoce (Dementia Praecox), caracterizada por deterioração progressiva
- Psicose Maníaco-Depressiva, marcada por episódios de humor com períodos de remissão
Essa diferenciação estabelece a base da classificação psiquiátrica moderna e influencia diretamente os sistemas diagnósticos atuais, discutidos em Como fazer hipótese diagnóstica sem precipitação.
Eugen Bleuler e a redefinição da esquizofrenia
A obra de Kraepelin é refinada por Eugen Bleuler, que substitui o termo demência precoce por esquizofrenia, enfatizando que não se trata necessariamente de um processo degenerativo inevitável.
Bleuler identifica os chamados sintomas fundamentais, conhecidos como os “4 As”:
- Autismo
- Ambivalência
- Afeto embotado
- Associações frouxas
Essa redefinição amplia a compreensão da psicose, deslocando o foco exclusivo de delírios e alucinações para alterações profundas da afetividade, do pensamento e da relação com a realidade.
O legado do século XIX para a psicopatologia contemporânea
O século XIX deixa como herança:
- a tensão entre biologia e psicologia
- a valorização da observação longitudinal
- o nascimento da classificação baseada em curso e prognóstico
Essa base histórica é indispensável para compreender tanto os avanços quanto as limitações dos sistemas diagnósticos atuais, tema aprofundado no texto pilar Psicopatologia, diagnóstico e classificação dos transtornos psiquiátricos.
Considerações finais
A grande contribuição do século XIX não foi escolher entre organicismo ou psicogênese, mas mostrar que o sofrimento psíquico exige modelos complexos, capazes de integrar biologia, história de vida e curso clínico.
Esse período inaugura a ideia de que diagnosticar não é apenas nomear sintomas, mas compreender trajetórias, prognósticos e processos.
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