A era dos manuais: CID e DSM e os limites da classificação diagnóstica em psicopatologia
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Ao longo do século XX, a psicopatologia entra em uma nova fase. Após a sofisticação metodológica introduzida por Karl Jaspers, discutida em Karl Jaspers e a sofisticação do método psicopatológico, torna-se evidente que a clínica precisava de algo além da descrição e da compreensão individual: era necessário padronizar a linguagem diagnóstica.
A expansão dos sistemas de saúde, o crescimento da pesquisa científica e a necessidade de comunicação entre profissionais, países e instituições levaram à criação dos grandes sistemas classificatórios internacionais. É nesse contexto que surgem a CID e o DSM, pilares da chamada era dos manuais.
Por que surgiram os sistemas classificatórios?
A criação de manuais diagnósticos não foi motivada por ambição teórica, mas por necessidades práticas. Entre elas:
- padronizar a comunicação clínica
- permitir comparabilidade entre pesquisas
- orientar políticas públicas de saúde
- organizar dados epidemiológicos
- facilitar decisões administrativas e legais
Sem uma linguagem comum, seria impossível acumular conhecimento científico em larga escala. Esse movimento dialoga diretamente com a evolução histórica apresentada no texto pilar Psicopatologia, diagnóstico e classificação dos transtornos psiquiátricos.
A CID e a psiquiatria no contexto da saúde pública
A Classificação Internacional de Doenças, conhecida como CID, é desenvolvida e mantida pela Organização Mundial da Saúde. Diferentemente do DSM, a CID não é um manual exclusivo de psiquiatria, mas uma classificação geral de todas as doenças humanas.
Os transtornos mentais estão organizados no chamado Capítulo F, que reúne condições psiquiátricas e do neurodesenvolvimento.
Evolução histórica da CID
A trajetória da CID revela um fenômeno central da psicopatologia contemporânea: a expansão progressiva das categorias diagnósticas.
- versões iniciais continham poucas categorias psiquiátricas
- o CID-10, publicado em 1993, já apresentava centenas de códigos específicos
- o CID-11, mais recente, refina ainda mais essas categorias, incorporando avanços da pesquisa e mudanças conceituais
Esse crescimento reflete tanto o aumento do conhecimento quanto a complexificação da prática clínica, mas também levanta questões críticas sobre os limites da classificação.
O DSM e a construção de uma linguagem psiquiátrica específica
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o DSM, é elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria e tem como foco exclusivo os transtornos mentais.
Sua história é marcada por mudanças conceituais profundas.
DSM-I e a influência psicodinâmica
O DSM-I, publicado em 1952, reflete fortemente o pensamento psicodinâmico dominante à época. Os transtornos eram descritos de forma ampla, com linguagem influenciada pela psicanálise, e o manual continha 106 diagnósticos.
Nesse momento histórico, a classificação ainda estava intimamente ligada a modelos explicativos.
DSM-III e a virada neo-kraepeliniana
A grande ruptura ocorre com o DSM-III, publicado em 1980. Esse manual inaugura a chamada virada neo-kraepeliniana, caracterizada por:
- critérios operacionais explícitos
- foco na confiabilidade diagnóstica
- abandono de teorias etiológicas específicas
O DSM-III substitui o termo doença mental por transtorno mental, reconhecendo explicitamente a incerteza etiológica. O número de categorias sobe para cerca de 275 diagnósticos.
Essa mudança teve impacto decisivo na pesquisa clínica e na prática profissional, mas também inaugurou debates intensos sobre reducionismo e fragmentação.
DSM-5 e a reorganização contemporânea
O DSM-5, publicado em 2013, aprofunda esse movimento. Entre suas principais mudanças estão:
- abandono do sistema multiaxial
- reorganização de agrupamentos diagnósticos
- deslocamento de alguns transtornos, como o TOC, que deixa o grupo dos transtornos de ansiedade
O número de diagnósticos ultrapassa 300 categorias, intensificando o debate sobre inflação diagnóstica e medicalização da experiência humana.
Função dos manuais: ferramenta, não teoria
Um ponto central para compreender corretamente a CID e o DSM é reconhecer sua função instrumental. Esses sistemas não foram criados para explicar a origem dos transtornos mentais, mas para organizar e padronizar a comunicação.
Eles são ferramentas para:
- pesquisa
- ensino
- gestão em saúde
- comunicação entre profissionais
Não são teorias da mente nem substitutos do raciocínio clínico, distinção fundamental já anunciada por Karl Jaspers.
Principais críticas aos sistemas classificatórios
Apesar de sua utilidade, a CID e o DSM acumulam críticas consistentes ao longo das últimas décadas.
Entre as principais estão:
- inflação diagnóstica, com crescimento contínuo do número de categorias
- alta comorbidade, em que um mesmo paciente se encaixa em múltiplos diagnósticos
- medicalização da normalidade, transformando variações humanas em transtornos
- ilusão de categorias discretas, que não refletem a complexidade clínica real
Essas críticas reforçam a necessidade de integrar os manuais a um raciocínio clínico mais amplo, como discutido em Como desenvolver raciocínio clínico em TCC.
“Os pacientes não leem os manuais”
A frase frequentemente atribuída à prática clínica resume o limite essencial da era dos manuais: os pacientes não se apresentam em categorias fechadas.
O sofrimento psíquico é vivido de forma singular, atravessado por história de vida, contexto cultural, relações e processos biológicos. Os manuais ajudam a nomear, mas não substituem a escuta, a observação e a formulação clínica.
Essa constatação conecta diretamente a era dos manuais às abordagens contemporâneas que buscam integrar diagnóstico, processos psicológicos e intervenção, como discutido em TCC baseada em processos.
Considerações finais
A CID e o DSM representam conquistas importantes da psiquiatria moderna. Sem eles, a pesquisa científica e a organização dos sistemas de saúde seriam inviáveis. No entanto, sua força está na padronização, não na explicação.
Compreender seus limites é tão importante quanto conhecer seus critérios. A prática clínica ética exige que os manuais sejam utilizados como ferramentas auxiliares, e não como substitutos do pensamento clínico.
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