A Idade Média e a psicopatologia: o retorno da explicação sobrenatural e a moralização do sofrimento psíquico
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Após os avanços conceituais da Grécia e de Roma na compreensão natural do sofrimento mental, a história da psicopatologia sofre uma inflexão profunda durante a Idade Média. Com a queda do Império Romano do Ocidente e a consolidação do poder político e cultural da Igreja Católica, o entendimento da loucura desloca-se novamente do campo médico para o campo moral, religioso e sobrenatural.
Este período representa um dos momentos mais críticos da história da psicopatologia, marcado pela perda de referências clínicas, pela supressão da observação empírica e pela transformação do sofrimento psíquico em objeto de julgamento espiritual. Essa ruptura ajuda a compreender por que a evolução dos sistemas diagnósticos, discutida no texto pilar Psicopatologia, diagnóstico e classificação dos transtornos psiquiátricos, não foi linear nem progressiva.
A ruptura com a tradição naturalista greco romana
A medicina hipocrática e galênica, que entendia o sofrimento psíquico como fenômeno natural e interno ao organismo, perde espaço na Europa medieval. Textos clássicos são esquecidos, reinterpretados ou filtrados por uma lente teológica.
A loucura deixa de ser compreendida como desequilíbrio corporal ou funcional e passa a ser vista como expressão de uma ordem moral violada. A pergunta clínica sobre causas e manifestações é substituída por uma pergunta teológica sobre culpa, pecado e salvação.
Esse movimento representa um afastamento radical da lógica observacional que havia começado a se consolidar na Antiguidade, como discutido em As raízes antigas da psicopatologia.
Loucura como pecado, possessão ou prova espiritual
Durante a Idade Média, o sofrimento psíquico passou a ser interpretado principalmente sob três categorias morais e religiosas:
- Pecado e punição divina, em que a doença mental era vista como consequência direta de falhas morais
- Possessão demoníaca, entendendo os sintomas como resultado da ação de entidades malignas
- Prova de fé ou sinal de eleição, especialmente em experiências místicas extremas
Essa ambiguidade gerava respostas igualmente ambíguas. O mesmo comportamento poderia ser interpretado como sinal de santidade ou de demonização, dependendo do contexto social, da autoridade religiosa envolvida e da conveniência política.
Santo Agostinho sintetiza esse pensamento ao afirmar:
“Todas as enfermidades dos cristãos devem ser atribuídas aos demônios. Os demônios atormentam de modo especial os recém batizados, até mesmo os bebês recém nascidos inteiramente sem culpa.”
Essa concepção teve efeitos devastadores para pessoas em sofrimento psíquico, pois deslocou o foco do cuidado para o controle moral.
As práticas terapêuticas e a violência institucionalizada
As intervenções dirigidas às pessoas consideradas loucas refletiam diretamente essa visão sobrenatural. Em vez de cuidado, observação ou acolhimento, predominavam práticas de correção espiritual e punição.
Entre as principais práticas estavam:
- Exorcismos, muitas vezes repetidos e violentos
- Penitências severas, incluindo jejuns prolongados e autoflagelação
- Isolamento social, confinando o indivíduo à margem da comunidade
- Tortura e execução, especialmente durante os períodos de Inquisição
A pessoa em sofrimento era duplamente punida: pela própria condição psíquica e pela violência daquilo que se apresentava como cura.
Esse período constitui um profundo retrocesso humanitário e científico, interrompendo por séculos o desenvolvimento de uma psicopatologia baseada em observação clínica.
Mosteiros, cuidado e ambivalência institucional
Apesar do predomínio da moralização do sofrimento, é importante reconhecer que nem toda resposta medieval foi homogênea. Alguns mosteiros funcionaram como espaços ambíguos de acolhimento, oferecendo abrigo, alimentação e algum cuidado básico a pessoas consideradas insanas.
No entanto, mesmo nesses contextos, o sofrimento psíquico raramente era compreendido como fenômeno clínico autônomo. O cuidado estava subordinado à lógica da salvação da alma, e não à compreensão da mente.
Essa ambivalência ajuda a explicar por que a transição para uma psiquiatria moderna exigiria uma ruptura tão radical nos séculos seguintes.
As consequências históricas para o diagnóstico e a classificação
A Idade Média deixou um legado duradouro na forma como o sofrimento psíquico foi estigmatizado. A associação entre loucura, perigo moral e desvio social persistiu por séculos e ainda influencia, de maneira indireta, estigmas contemporâneos.
A ausência de categorias clínicas claras, de critérios observacionais e de diferenciação entre sofrimento psíquico e transgressão moral atrasou significativamente o desenvolvimento de sistemas diagnósticos estruturados.
Somente com o Renascimento e, posteriormente, com o Iluminismo, seria possível retomar a ideia de que o sofrimento mental poderia ser descrito, classificado e tratado de forma racional, movimento que prepara o terreno para a psiquiatria moderna analisada no texto pilar Psicopatologia, diagnóstico e classificação dos transtornos psiquiátricos.
Considerações finais
A Idade Média representa um dos períodos mais sombrios da história da psicopatologia. Ao moralizar o sofrimento psíquico e atribuí-lo a forças sobrenaturais, esse período produziu exclusão, violência e silenciamento.
Compreender esse momento histórico é fundamental para que profissionais de saúde mental reconheçam a importância ética, científica e clínica de modelos baseados em evidências, observação e respeito à dignidade humana.
A história da psicopatologia não é apenas a história das teorias, mas também a história das práticas e de suas consequências sobre vidas concretas.
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