As raízes antigas da psicopatologia: entre explicações místicas e o nascimento da abordagem natural do sofrimento psíquico
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A compreensão do sofrimento psíquico antecede em milênios o surgimento da psicologia e da psiquiatria como campos científicos. Muito antes dos primeiros registros escritos, sociedades humanas já buscavam explicar, nomear e intervir sobre estados mentais considerados perturbados, estranhos ou ameaçadores à ordem social.
Este texto explora as raízes antigas da psicopatologia, destacando a transição histórica entre explicações místicas e os primeiros esforços de compreensão natural e observacional do sofrimento mental. Essa trajetória é fundamental para entender como se estruturaram, ao longo do tempo, os conceitos de diagnóstico e classificação discutidos no texto pilar Psicopatologia, diagnóstico e classificação dos transtornos psiquiátricos.
A trepanação craniana e a concepção primitiva da loucura
Evidências arqueológicas do período neolítico revelam uma prática impressionante e amplamente difundida: a trepanação craniana. Crânios encontrados em diferentes regiões do mundo, incluindo a Europa, a África e as civilizações andinas, apresentam orifícios circulares cuidadosamente abertos, muitas vezes com sinais de cicatrização óssea.
Esses achados indicam que a trepanação não era um ato isolado ou meramente ritualístico, mas uma intervenção deliberada, possivelmente terapêutica. A hipótese mais aceita é que a loucura, as convulsões ou estados alterados de consciência eram compreendidos como a presença de uma entidade externa um espírito maligno que precisava ser fisicamente liberado do corpo.
Essa concepção inaugura um padrão que atravessará séculos: o sofrimento mental como algo externo ao sujeito, invasivo e ameaçador, exigindo intervenções igualmente invasivas.
O Egito Antigo e os primeiros registros clínicos do sofrimento psíquico
Um avanço significativo ocorre no Egito Antigo, por volta de 1500 a.C., com a produção de documentos médicos sistematizados. O Papiro de Ebers é um dos mais importantes desses registros, funcionando como um tratado médico que vai além de explicações exclusivamente mágicas ou religiosas.
Nesse papiro, encontramos descrições detalhadas de estados de “abandono do coração”, caracterizados por tristeza profunda, retraimento e perda de interesse pela vida quadros que hoje poderiam ser compreendidos como manifestações depressivas. Também há relatos de perda progressiva das faculdades mentais em idosos, compatíveis com o que atualmente chamamos de demência.
Mais relevante do que a descrição dos estados mentais é o registro de intervenções clínicas, principalmente à base de plantas medicinais. Isso indica uma transição crucial: o sofrimento psíquico passa a ser observado, descrito e tratado como parte do cuidado médico, ainda que coexistindo com práticas mágicas.
Esse movimento inicial de observação clínica é um precursor direto do que hoje entendemos como psicopatologia descritiva, base dos sistemas diagnósticos modernos discutidos no texto pilar.
A Grécia Clássica e a medicalização do sofrimento psíquico
A Grécia Clássica marca uma ruptura epistemológica decisiva na história da psicopatologia. Com Hipócrates (c. 460–370 a.C.), o sofrimento psíquico deixa de ser interpretado predominantemente como punição divina ou possessão espiritual e passa a ser compreendido como um fenômeno natural.
A chamada Teoria dos Quatro Humores propunha que a saúde física e mental dependia do equilíbrio entre sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra.
Embora biologicamente incorreta, essa teoria foi revolucionária ao deslocar o foco da explicação do sofrimento para causas internas e naturais.
Hipócrates descreveu três grandes síndromes que permanecem conceitualmente relevantes até hoje:
- Frenite: estado de delírio agudo frequentemente associado à febre
- Mania: agitação intensa, excitação e comportamento desorganizado
- Melancolia: tristeza profunda, apatia e retraimento
Sua célebre afirmação sintetiza essa mudança de paradigma:
“É do cérebro, e apenas do cérebro, que surgem nossos prazeres, alegrias, tristezas, dores, medos, insônia e ansiedade.”
Essa concepção inaugura a medicalização do sofrimento psíquico, base sobre a qual se desenvolveriam séculos depois os modelos diagnósticos contemporâneos.
Platão, Aristóteles e a sistematização das funções psíquicas
O pensamento grego não se limitou à medicina. Filósofos como Platão e Aristóteles exerceram influência duradoura sobre a compreensão da mente.
Platão introduziu um dualismo marcante entre corpo (soma) e alma (psyche), que influenciaria profundamente as concepções posteriores de doença mental, muitas vezes reforçando a separação entre sofrimento psíquico e corporal.
Aristóteles, por outro lado, avançou na descrição sistemática das funções psíquicas, como memória, imaginação e juízo. Seu trabalho lançou bases conceituais para aquilo que mais tarde se tornaria o exame do estado mental, elemento central da avaliação psicopatológica moderna.
Galeno e a tipologia dos temperamentos
No período romano, Galeno consolidou e expandiu a teoria humoral, associando o predomínio de cada humor a diferentes temperamentos humanos:
- Colérico: impulsivo e irascível
- Sanguíneo: vital, expansivo e sociável
- Fleumático: estável, lento e reservado
- Melancólico: introspectivo, triste e reflexivo
Essa tipologia influenciou profundamente a psicologia e a psiquiatria por séculos, antecipando tentativas posteriores de classificar padrões de personalidade e comportamento.
Das raízes antigas aos sistemas diagnósticos contemporâneos
Embora hoje disponhamos de sistemas sofisticados como DSM e CID, compreender essas raízes históricas é fundamental para evitar reducionismos. A história da psicopatologia mostra que diagnóstico e classificação são construções históricas, moldadas por contextos culturais, científicos e éticos.
Essa reflexão histórica amplia a compreensão crítica dos modelos atuais, tema aprofundado em Psicopatologia, diagnóstico e classificação dos transtornos psiquiátricos.
Considerações finais
As raízes antigas da psicopatologia revelam um percurso complexo, marcado por avanços, retrocessos e rupturas conceituais. Da trepanação neolítica à observação clínica grega, cada etapa contribuiu para a construção do olhar clínico contemporâneo.
Compreender essa trajetória não é apenas um exercício histórico, mas uma ferramenta clínica essencial para profissionais que desejam diagnosticar, intervir e cuidar do sofrimento psíquico com rigor, criticidade e humanidade.
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