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Nomeação de Boston (Boston Naming Test): Guia Completo de Avaliação da Nomeação
O Teste de Nomeação de Boston (Boston Naming Test - BNT) é a ferramenta padrão-ouro para avaliar nomeação por confrontação visual. Em 10-15 minutos de aplicação, fornece informações precisas sobre acesso lexical, memória semântica, processamento visual-semântico, e integridade das vias linguísticas. Composto por 60 figuras de objetos/animais com dificuldade crescente (de "árvore" a "esfinge"), permite detectar anomias sutis em demências iniciais, diferenciar tipos de afasias, e monitorar progressão de déficits linguísticos. Complementa perfeitamente a Fluência Verbal — enquanto fluência avalia busca lexical ATIVA (gerar palavras espontaneamente), Boston avalia acesso lexical RECEPTIVO (nomear quando vê).
O que o Teste de Boston Avalia (e o que NÃO Avalia)
Funções Cognitivas Primariamente Avaliadas
Nomeação por Confrontação Visual: Capacidade de recuperar e produzir o nome correto de um objeto apresentado visualmente. Processo complexo: (1) percepção visual da figura, (2) reconhecimento semântico (saber O QUE é), (3) acesso à representação léxica (PALAVRA correspondente), (4) produção fonológica (falar). Cada etapa pode falhar isoladamente, produzindo padrões erro diferentes.
Memória Semântica: Conhecimento conceitual armazenado sobre objetos, animais, ferramentas. Saber que "esfinge" é um ser mitológico egípcio, que "ábaco" é instrumento de cálculo. Demências semânticas (variante temporal DFT) perdem este conhecimento — não é que "esquecem a palavra", é que perdem o CONCEITO.
Processamento Visual-Semântico: Integração informação visual (forma, componentes) com conhecimento semântico armazenado. Ver "objeto longo, cilíndrico, ponta grafite" → ativar conceito "lápis". Lesões occipito-temporais posteriores (conexão visual-semântica) comprometem.
Acesso Lexical (Recuperação Palavra): Traduzir conceito semântico em forma fonológica/articulatória. SABER o que é mas não conseguir "achar a palavra" = fenômeno "ponta-da-língua", comum em envelhecimento normal e patológico (Alzheimer inicial). Diferentes de não saber O QUE é.
Funções NÃO Primariamente Avaliadas
Compreensão Verbal Complexa: Boston exige apenas PRODUZIR palavra, não compreender frases complexas. Para compreensão, usar Token Test, seguimento comandos complexos.
Linguagem Expressiva Espontânea: Não avalia fluência conversacional, sintaxe em contexto, pragmática. Para isso, análise discurso espontâneo, descrição cena (Cookie Theft).
Leitura/Escrita: Tarefa é verbal oral. Não detecta alexia (déficit leitura) ou agrafia (déficit escrita) isoladamente.
Memória Episódica: Não há componente memória longo prazo (apresenta figura, nomeia imediatamente). Para memória, usar RAVLT ou Rey.
Protocolo de Aplicação Detalhado
Materiais e Preparação
Livro de Estímulos BNT: 60 figuras em preto-branco, linha simples, apresentadas em ordem FIXA de dificuldade crescente. Não reordenar — progressão dificuldade é parte do design teste.
Itens iniciais (fáceis): Objetos comuns alta frequência — árvore, lápis, casa, barco. Acerto esperado >95% população geral.
Itens intermediários: Frequência moderada — unicórnio, tripé, pelicano. Diferencia funcionamento normal de comprometimento leve.
Itens finais (difíceis): Baixa frequência, conhecimento cultural específico — esfinge, ábaco, tridente, paleta (pintor). Mesmo pessoas saudáveis erram alguns.
Procedimento de Aplicação Padrão
Instrução inicial: "Vou mostrar algumas figuras. Você me diz o nome de cada uma. Se não souber ou não lembrar, tudo bem, a gente continua. Vamos começar."
Apresentação figura: Mostrar cada figura centralizada, distância ~50cm, iluminação adequada (déficits visuais podem mascarar déficits linguísticos).
Tempo resposta espontânea: 20 segundos. Cronometrar silenciosamente. Se paciente não responde em 20s, oferecer pista SEMÂNTICA (ver abaixo).
Registro resposta: Anotar LITERALMENTE o que paciente diz, incluindo autocorreções, circunlóquios, parafasias. Exemplo: se figura "camelo" paciente diz "dromo... não, dromedono... dromedário", anotar TUDO (revela dificuldade acesso fonológico vs semântico).
Sistema de Pistas Hierárquicas
Se paciente não nomeia espontaneamente em 20s, seguir hierarquia:
1. Pista Semântica (Categoria):
- Fornecer categoria superordenada: "É um animal", "É uma ferramenta", "É algo que você usa para..."
- Se acerta com pista semântica: Pontuar SEPARADAMENTE (ex: "correto com pista semântica"). Indica déficit acesso lexical MAS memória semântica preservada (sabe O QUE é quando ajudado).
2. Pista Fonêmica (Primeiro Som):
- Se pista semântica não ajudou, fornecer primeiro fonema/sílaba: "Começa com CA...", "Es..."
- Se acerta com pista fonêmica: Indica déficit acesso palavra específica (fenômeno ponta-língua) mas reconhecimento visual-semântico preservado.
3. Identificação (Se errou ambas pistas):
- Perguntar: "Você sabe o que é isso? Para que serve?" (sem nomear)
- Permite diferenciar: anomia (não consegue nome MAS descreve função corretamente) vs agnosia/déficit semântico (não sabe nem O QUE é).
Critério de Interrupção
Regra 6 consecutivos: Se paciente erra 6 figuras CONSECUTIVAS (mesmo com pistas), interromper teste. Itens subsequentes serão ainda mais difíceis, frustrante sem ganho informativo. Escore = itens corretos até ponto parada.
Exceção: Se investigando demência semântica específica ou pesquisa, pode administrar todos 60 para análise qualitativa padrões erro.
Pontuação e Interpretação Quantitativa
Escore Bruto Total
Pontuação: 1 ponto por item nomeado CORRETAMENTE e ESPONTANEAMENTE (sem pistas). Máximo 60 pontos.
Respostas aceitas:
- Nome correto exato: "camelo" para camelo = 1 ponto
- Sinônimos regionais aceitáveis: "pipa" ou "papagaio" (brinquedo) = 1 ponto se culturalmente equivalente
- Autocorreção espontânea rápida (<5s): "dromedono... dromedário" = 1 ponto (encontrou palavra mesmo com hesitação)
Respostas NÃO aceitas (0 pontos):
- Parafasias semânticas: "cavalo" para camelo (erro semântico mesmo categoria)
- Circunlóquios: "aquele bicho do deserto com corcova" (descreve mas não nomeia)
- Nomes supracategoriais: "animal" para camelo (muito genérico)
- Correto APENAS com pista (pontuar separadamente como "pista semântica" ou "pista fonêmica")
Normas e Pontos de Corte
Valores normativos (ajustados idade/escolaridade):
Adultos jovens (20-40 anos, escolaridade ≥12 anos):
- Média: 54-58/60
- Limite inferior normalidade: ≥52
Adultos mais velhos (60-75 anos, escolaridade ≥12 anos):
- Média: 50-54/60
- Limite inferior: ≥48
Idosos (>75 anos):
- Média: 46-50/60
- Limite inferior: ≥44
Importante: Escolaridade influencia MUITO. Pessoas baixa escolaridade (<8 anos) têm normas próprias (média ~40-45). SEMPRE usar normas ajustadas.
Comprometimento por severidade:
- Leve: 40-47/60 (abaixo norma mas funcional)
- Moderado: 30-39/60 (dificuldade evidente palavras baixa-média frequência)
- Grave: <30/60 (anomia severa, apenas palavras altíssima frequência)
Interpretação Qualitativa: Tipos de Erro e Significados
1. Respostas Corretas com Pista (Dissociação Pista Semântica vs Fonêmica)
Correto com pista SEMÂNTICA (categoria):
- Padrão: Erra espontaneamente mas acerta quando diz "é um animal"
- Interpretação: Déficit ACESSO LEXICAL (não encontra palavra) MAS reconhecimento visual-semântico OK (sabe o que é). Comum envelhecimento normal, Alzheimer inicial.
- Exemplo: Figura "pelicano" → silêncio 20s → "é um pássaro" → "ah! pelicano!"
Correto com pista FONÊMICA (primeiro som):
- Padrão: Não ajudou pista semântica, mas pista fonêmica sim
- Interpretação: Déficit acesso palavra ESPECÍFICA (fenômeno ponta-língua patológico). Conceito está lá, palavra está "presa". Alzheimer leve-moderado, afasia anômica.
- Exemplo: Figura "camelo" → silêncio → "é um animal" → silêncio → "CA..." → "camelo!"
NÃO melhora com NENHUMA pista:
- Interpretação: Déficit SEMÂNTICO (não sabe o que é) OU agnosia visual (não reconhece visualmente). Diferenciar perguntando função/características sem nomear.
2. Parafasias Semânticas
Padrão: Substitui palavra-alvo por outra SEMANTICAMENTE relacionada mas incorreta.
Exemplos:
- "Cavalo" para camelo (mesma categoria - animais quadrúpedes)
- "Martelo" para serrote (categoria ferramentas)
- "Violino" para harpa (categoria instrumentos cordas)
Interpretação clínica:
- Ocasionais (1-3 em 60 itens): Normal, especialmente itens difíceis baixa frequência
- Frequentes (>10): Déficit SEMÂNTICO. Representações conceituais degradadas/confusas. Demência semântica (DFT variante temporal), Alzheimer moderado-avançado.
- Padrão categoria-específico: Erros concentrados em UMA categoria (ex: só animais, ferramentas OK) sugere lesão focal região semântica específica (córtex temporal categorial).
3. Parafasias Fonêmicas
Padrão: Distorção FONOLÓGICA da palavra-alvo — sons substituídos, omitidos, adicionados.
Exemplos:
- "Tamélo" para camelo
- "Dromerário" para dromedário
- "Esfinge" → "esfinje", "esginge"
Interpretação:
- Raras: Normal em palavras baixa frequência (pessoa conhece mas pronuncia raramente, fonologia instável)
- Frequentes: Afasia de condução (lesão fascículo arqueado — conexão Wernicke-Broca). Paciente SABE palavra, SABE o que é, mas não consegue PRODUZIR fonologicamente correto. Tenta múltiplas vezes, autocorrige.
4. Circunlóquios
Padrão: Descreve função, características, contexto uso, mas NÃO produz nome.
Exemplos:
- Camelo → "aquele bicho que anda no deserto e tem uma corcova nas costas"
- Ábaco → "aquele negócio antigo que usavam para contar, tem bolinhas que você move"
Interpretação:
- Reconhecimento semântico PRESERVADO (sabe o que é, função, contexto)
- Acesso lexical COMPROMETIDO (não recupera palavra específica)
- Comum: Alzheimer inicial (memória semântica ainda OK mas acesso nomes falha), afasia anômica, envelhecimento normal
- Contraste: Demência semântica NÃO produz circunlóquios ricos — se não sabe nome, também não sabe O QUE é
5. Perseverações
Padrão: Repete resposta de item ANTERIOR em item atual.
Exemplo:
- Item 15 (camelo) → "camelo" (correto)
- Item 16 (máscara) → "camelo" (perseveração)
- Item 17 (pretzel) → "camelo" novamente
Interpretação:
- Disfunção EXECUTIVA (inibição falha — não consegue "sair" da resposta anterior)
- Lesões FRONTAIS, DFT variante comportamental, Alzheimer avançado
- Diferente parafasia semântica: Perseveração = mesma palavra repetida item após item. Parafasia = erro semanticamente relacionado mas diferente cada vez.
6. Não-Respostas vs "Não Sei"
"Não sei" / "Não lembro":
- Verbalização explícita desconhecimento
- Insight PRESERVADO (reconhece déficit)
- Comum: Depressão (baixo esforço mas consciência preservada), Alzheimer inicial com insight
Silêncio / Não-resposta sem verbalizar:
- Não diz nada, não tenta, passa rapidamente
- Pode indicar: apatia (frontal), anosognosia (não percebe que deveria saber), ou afasia severa (sabe que não consegue falar, desiste)
Perfis Clínicos por Patologia
Doença de Alzheimer
Padrão Inicial (Leve):
- Escore: 45-50/60 (levemente abaixo esperado idade/escolaridade)
- Erros predominantes: Itens baixa frequência (finais teste). Padrão FREQUÊNCIA — erra palavras raras, preserva comuns.
- Tipo erro: Circunlóquios ricos (descreve bem função), respostas corretas com pista semântica (conceito OK, palavra "presa")
- Pistas ajudam: Especialmente semânticas. Fonêmicas também.
- Insight: Verbaliza frustração "sei o que é mas não lembro o nome" (fenômeno ponta-língua).
Padrão Moderado:
- Escore: 30-40/60
- Erros: Itens média E baixa frequência. Começa errar itens intermediários.
- Tipo erro: Parafasias semânticas aumentam ("cavalo" para camelo). Circunlóquios tornam-se vagos, menos detalhados.
- Pistas: Semânticas ajudam menos (degradação conhecimento conceitual). Fonêmicas ainda úteis parcialmente.
- Convergência: RAVLT devastado (0-2/15), fluência semântica muito baixa (<10 animais), relógio números faltando.
Padrão Avançado:
- Escore: <20/60
- Erros: Até itens alta frequência (iniciais). Pode nomear apenas 10-15 figuras mais comuns.
- Tipo erro: Perseverações, parafasias semânticas grosseiras ("coisa" para tudo), não-respostas frequentes.
- Pistas não ajudam: Perda semântica severa.
Demência Frontotemporal Variante Semântica (DFT-vs)
Padrão MUITO CARACTERÍSTICO - diferente Alzheimer:
Escore: Pode ser severamente baixo (20-30/60) MESMO com memória episódica PRESERVADA (contraste marcante com Alzheimer).
Erro dominante: Perda CONHECIMENTO SEMÂNTICO.
- Não é "não lembro palavra", é "não sei o que é isso"
- Pergunta "para que serve?" → não sabe descrever função/características
- Pode olhar figura camelo e genuinamente não reconhecer como animal (agnosia semântica)
Pistas NÃO ajudam:
- Pista semântica "é um animal" → não ativa nada (perdeu categoria)
- Pista fonêmica "CA..." → pode dizer "camelo" mas sem saber O QUE é (eco fonológico sem significado)
Padrão categoria-específico possível:
- DFT-vs atinge POLO TEMPORAL (armazenamento semântico categorial)
- Lesão temporal ESQUERDO → déficit FERRAMENTAS/objetos manufaturados
- Lesão temporal DIREITO → déficit SERES VIVOS (animais, plantas)
Contraste com Alzheimer:
- Alzheimer: Boston baixo + RAVLT devastado (amnésia domina)
- DFT-vs: Boston devastado + RAVLT PRESERVADO (8-10/15, memória episódica OK!)
Outros marcadores DFT-vs:
- Fluência semântica DEVASTADA (<5 animais), fonêmica relativamente preservada (dissociação oposta Alzheimer)
- Compreensão palavras baixa frequência comprometida (não entende "esfinge", "ábaco" mesmo quando ouve)
- Perguntas repetitivas sobre significado palavras ("o que é esfinge?")
Afasia de Wernicke (Afasia Fluente Receptiva)
Contexto: Lesão temporal posterior ESQUERDA (área Wernicke). Compreensão verbal severamente comprometida, produção fluente mas parafásica.
Padrão Boston:
- Escore: Muito baixo (<30/60)
- Erro dominante: PARAFASIAS — semânticas E fonêmicas misturadas
- Produção fluente: Diferente Broca (esforçoso), Wernicke produz palavras FACILMENTE mas ERRADAS. "Tamélo, não dromerinho, aquele cavadro" (neologismos, parafasias)
- SEM insight: Não percebe que está errando. Anosognosia linguística. Quando corrigido, não compreende erro.
- Pistas não ajudam: Não COMPREENDE pista semântica (déficit receptivo). Pista fonêmica pode gerar eco sem significado.
Convergência: Compreensão verbal muito ruim (Token Test devastado), repetição comprometida, leitura/escrita comprometidas.
Afasia de Broca (Afasia Não-Fluente Expressiva)
Contexto: Lesão frontal inferior ESQUERDA (área Broca). Produção verbal esforçosa, telegráfica, MAS compreensão relativamente preservada.
Padrão Boston:
- Escore: Variável (30-50/60) dependendo severidade
- Erro dominante: APRAXIA DE FALA — sabe palavra, não consegue ARTICULAR. Múltiplas tentativas fonêmicas: "ca... came... tamélo... CAMELO!" (esforço visível)
- Latências longas: Demora muito para iniciar palavra (dificuldade programação motora fala)
- Insight PRESERVADO: Frustração evidente, tenta autocorrigir, pede desculpas por demora
- Pistas AJUDAM: Compreensão OK, então pista semântica ativa conceito. Problema é PRODUZIR.
Convergência: Compreensão boa (Token Test OK), repetição ruim (produção), escrita comprometida similar fala.
Afasia Anômica (Mais Leve/Comum)
Padrão:
- Escore: 40-50/60 (moderadamente comprometido)
- Erro dominante: CIRCUNLÓQUIOS + fenômeno ponta-língua. "Aquele bicho que... você sabe, do deserto, com corcova..." (descreve perfeitamente mas não nomeia)
- Pistas fonêmicas MUITO úteis: "CA..." → "AH! Camelo!" (alívio, palavra estava "presa")
- Produção fluente: Fala normalmente, sem agramatismo, apenas "falhas" em palavras específicas (tipicamente baixa frequência)
- Insight total: Muito frustrado, "tenho na ponta da língua"
Comum em: Alzheimer inicial, lesões temporais esquerdas focais, envelhecimento normal patológico.
Depressão Grave (Pseudodemência)
Padrão:
- Escore: Variável mas tipicamente 40-48/60 (abaixo esperado MAS não devastado)
- Erro dominante: "NÃO SEI" precoce. Desiste rapidamente sem tentar. Baixo esforço aparente.
- Padrão motivacional: Erra itens fáceis por desistência mas às vezes acerta difíceis (inconsistência por esforço flutuante, não degradação estrutural)
- Latências muito longas: Lentificação psicomotora. Olha figura 15-20s sem falar, depois "não sei" (diferente afásicos que TENTAM múltiplas vezes)
- Autocrítica excessiva: "Estou péssimo", "não sirvo para nada", verbalização fracasso desproporcional ao desempenho real
- Melhora pós-tratamento: Reteste após remissão depressão mostra NORMALIZAÇÃO (40→54). Confirma déficit funcional não estrutural.
Contraste Alzheimer: Alzheimer piora progressivamente teste-reteste. Depressão melhora ou oscila.
Integração com Bateria Neuropsicológica
Boston + Fluência Verbal: Dupla Linguística
Fluência Verbal: Busca lexical ATIVA espontânea (gerar palavras categoria/letra)
Boston: Acesso lexical RECEPTIVO confrontação (nomear quando vê)
Dissociações informativas:
Boston baixo + Fluência semântica baixa + Fluência fonêmica OK:
- Déficit SEMÂNTICO específico (conhecimento conceitual degradado)
- DFT variante semântica, Alzheimer moderado
Boston baixo + Fluência semântica OK + Fluência fonêmica baixa:
- Déficit EXECUTIVO-FRONTAL (busca estratégica verbal comprometida)
- DFT variante comportamental, lesões frontais esquerdas
Ambos (Boston + Fluências) severamente baixos:
- Afasia global, demência avançada
Boston + RAVLT: Linguagem vs Memória
Boston baixo + RAVLT baixo:
- Alzheimer (ambos domínios comprometidos — bilateral temporal)
Boston MUITO baixo + RAVLT PRESERVADO:
- DFT variante semântica (temporal anterior vs hipocampo posterior dissociados)
- Marcador diferencial CHAVE: memória episódica OK mas linguagem devastada = DFT-vs, não Alzheimer
Boston OK + RAVLT devastado:
- Alzheimer MUITO inicial (memória episódica colapsa antes linguagem)
- Amnésia pós-TCE hipocampal (linguagem poupada)
Boston + Testes Executivos
Boston baixo + WCST baixo + Torre baixa:
- DFT variante comportamental (frontal + temporal anterior)
Boston baixo + Executivos OK:
- Afasia primária progressiva, DFT variante semântica (temporal focal)
Casos Clínicos Detalhados
Caso 1: Sra. Helena, 68 anos - Alzheimer Inicial
Apresentação: Queixas memória últimos 2 anos. "Esqueço nomes pessoas, compromissos, conversas". Família nota repetições frequentes. Nega outras dificuldades.
Boston Naming Test:
- Escore total: 46/60 (abaixo esperado idade/escolaridade, esperado ~52)
- Padrão erros: Acertou todos itens 1-35 (alta-média frequência). Errou 14/25 itens finais (baixa frequência): esfinge, ábaco, treli, paleta, tripé.
- Tipos erro predominantes:
- Circunlóquios ricos: Esfinge → "aquela estátua egípcia, tem corpo de leão e cabeça de pessoa"
- Fenômeno ponta-língua: "Sei o que é mas não lembro o nome" (verbalizado 8x)
- Parafasias semânticas raras: "harpa" para lira (instrumentos cordas)
- Respostas com pistas: 10/14 erros ACERTOU com pista semântica. Pista fonêmica ajudou 3 adicionais. Apenas 1 erro mesmo com ambas pistas (genuinamente não sabia "ábaco").
- Insight: Frustração evidente. "Isso é terrível, antes eu sabia todas essas palavras".
Integração Bateria:
- MEEM: 26/30 (limítrofe — perdeu pontos memória tardia, orientação temporal)
- RAVLT: A1=5, A5=7 (sem curva aprendizagem), Tardia=2/15, Reconhecimento 9/15 com falsos positivos (amnésia SEVERA)
- Rey: Cópia 32/36 (OK), Memória 5/36 (discrepância cópia-memória marcador Alzheimer)
- Fluência Verbal: Animais 11 (esperado >15, déficit semântico emergente), FAS 36 (preservada)
- Dígitos: Direta 6, Inversa 4 (preservados)
Perfil Alzheimer Inicial Clássico:
- Memória episódica DEVASTADA (RAVLT 2/15, Rey 5/36)
- Linguagem levemente comprometida (Boston 46, fluência animais 11)
- Atenção/memória trabalho preservadas (Dígitos OK)
- Padrão FREQUÊNCIA nos erros (erra palavras raras, preserva comuns)
Valor Boston neste caso: Escore 46 NÃO é "devastado" isoladamente. MAS na INTEGRAÇÃO com RAVLT (2/15), confirma padrão Alzheimer: memória>>linguagem. Boston também mostra que déficit linguístico é ACESSO (pistas ajudam) não perda semântica pura (ainda).
Prognóstico: Reteste 12 meses: Boston caiu para 38 (perda 8 pontos), RAVLT 0/15. Progressão típica.
Caso 2: Sr. Marco, 62 anos - DFT Variante Semântica
Apresentação: Esposa relata "mudanças personalidade + linguagem estranha últimos 3 anos". Paciente faz perguntas repetitivas sobre significados palavras ("o que é esfinge? o que é pelicano?"), mesmo após explicar múltiplas vezes esquece. Comportamento social inapropriado emergente. NEGA problemas memória ("minha memória está ótima").
Boston Naming Test:
- Escore total: 28/60 (SEVERAMENTE comprometido para idade/escolaridade)
- Padrão erros: Errou até itens MÉDIA frequência (itens 20-40). Padrão NÃO é apenas baixa frequência.
- Tipos erro predominantes:
- Perda conhecimento semântico: Camelo → olha figura, silêncio prolongado, "não sei o que é isso". Quando perguntado "para que serve? onde vive?", não sabe responder (diferente Alzheimer que descreveria).
- Parafasias semânticas categoria-específica: TODOS animais errados ("cavalo" para camelo, "cachorro" para rinoceronte), mas ferramentas/objetos relativamente preservados. Sugere lesão TEMPORAL DIREITO (animais/seres vivos).
- Pistas NÃO ajudam: "É um animal" → não ativa nada. "CA..." → diz "camelo" mecanicamente mas quando perguntado "o que é camelo?" não sabe.
- Sem insight: Não demonstra frustração. Quando erra, passa rapidamente sem preocupação (anosognosia).
Integração Bateria:
- RAVLT: A1=9, A5=12, Tardia=9/15 (memória episódica PRESERVADA!!!) — dissociação chocante com Boston devastado
- Rey Memória: 20/36 (preservada relativamente — memória visual OK)
- Fluência Verbal: Animais 4 (DEVASTADA), FAS 28 (PRESERVADA) — dissociação semântica vs fonêmica patognomônica DFT-vs
- WCST: 3/6 categorias (executivo levemente comprometido mas não devastado)
- Compreensão verbal: Não entende palavras baixa frequência mesmo quando OUVE (pede definições repetidamente)
DISSOCIAÇÃO PATOGNOMÔNICA DFT VARIANTE SEMÂNTICA:
- Boston 28 (devastado) + RAVLT 9/15 (preservado)
- Fluência animais 4 vs FAS 28 (semântica devastada, fonêmica OK)
- Perda CONHECIMENTO CONCEITUAL (não é "esqueci palavra", é "não sei o que é")
Contraste com Alzheimer: Sra. Helena (Alzheimer) tinha Boston 46 + RAVLT 2/15. Sr. Marco (DFT-vs) tem Boston 28 + RAVLT 9/15. Padrões OPOSTOS.
Neuroimagem confirmou: Atrofia POLO TEMPORAL ANTERIOR bilateral (mais esquerdo que direito). Padrão clássico DFT-vs.
Caso 3: Dr. Silva, 55 anos - Afasia Anômica Pós-AVC
Apresentação: AVC isquêmico temporal esquerdo há 6 meses. Recuperação motora completa. Queixa principal: "não consigo achar as palavras, fica na ponta da língua". Fala fluente, sem agramatismo, mas múltiplas pausas procurando palavras.
Boston Naming Test:
- Escore total: 42/60
- Padrão erros: Erros distribuídos itens média-baixa frequência (20-60)
- Tipos erro predominantes:
- Circunlóquios EXTREMAMENTE detalhados: Esfinge → "aquela escultura famosa que fica no Egito, perto das pirâmides, tem corpo de leão mas cabeça de faraó, conhecimento perfeito mas palavra "esfinge" não vem
- Fenômeno ponta-língua SEVERO: Múltiplas tentativas fonêmicas aproximadas: "es... esfi... esfin... ESFINGE!" (alívio quando acerta)
- ZERO parafasias semânticas (diferente afasia Wernicke — sabe conceito exato)
- Pistas fonêmicas EXTREMAMENTE úteis: 15/18 erros ACERTOU imediatamente com primeiro som. "ES..." → "ESFINGE! Era essa que eu estava tentando falar!"
- Insight total + frustração: "É horrível, eu SEI o que é, vejo na minha cabeça, mas a palavra não sai"
Integração Bateria:
- RAVLT: 12/15 evocação imediata, 11/15 tardia (memória episódica PRESERVADA)
- Fluência Verbal: Animais 12 (levemente abaixo), FAS 22 (baixo para escolaridade — executivo verbal comprometido)
- Compreensão verbal: EXCELENTE (Token Test >90% — diferente Wernicke)
- Repetição: Preservada (diferente afasia condução)
- Dígitos: Direta 7, Inversa 6 (normal)
Perfil Afasia Anômica Clássica:
- Produção fluente MAS pausas frequentes procurando palavras
- Compreensão PRESERVADA (diferente Wernicke)
- Circunlóquios ricos (conhecimento semântico intacto)
- Pistas fonêmicas MUITO eficazes (palavra está "presa", pista "destrava")
- Insight e frustração severos
Prognóstico: Reteste 6 meses pós-AVC: Boston melhorou para 50/60. Terapia fonoaudiológica (treino acesso lexical, estratégias circunlóquio, pistas self-cued) muito eficaz. Diferente demências (que pioram), lesões focais podem RECUPERAR.
Desenvolvimento de Habilidades Profissionais em Avaliação Neuropsicológica
Dominar a aplicação e interpretação do Boston Naming Test — e sua integração com os demais instrumentos da bateria neuropsicológica — exige não apenas conhecimento teórico sobre modelos de processamento linguístico e memória semântica, mas também prática supervisionada extensiva, exposição a casos diversos representando diferentes patologias, e compreensão profunda dos padrões de dissociação entre testes que permitem diagnóstico diferencial preciso.
A capacidade de distinguir, por exemplo, uma afasia anômica pós-AVC (circunlóquios ricos, pistas fonêmicas eficazes, insight preservado) de uma demência semântica (perda conhecimento conceitual, pistas ineficazes, anosognosia) ou de um Alzheimer inicial (padrão frequência, memória episódica devastada convergindo), é uma habilidade clínica que se desenvolve ao longo do tempo com supervisão experiente e estudo contínuo das evidências científicas.
A Formação Permanente do IC&C oferece um caminho estruturado para esse desenvolvimento, com supervisão de casos, discussões clínicas aprofundadas, e conteúdo baseado nas últimas evidências científicas em neuropsicologia e ciências cognitivas.
E se você ainda não assistiu ao nosso webinário gratuito com a Dra. Judith Beck e a Professora Vivian Bueno, é uma oportunidade muito valiosa para compreender como intervenções cognitivas e comportamentais se aplicam em contextos neurológicos e demenciais. Judith Beck é uma das maiores autoridades mundiais em TCC, e a conversa oferece insights sobre como adaptar intervenções terapêuticas para populações com comprometimento cognitivo — conhecimento essencial para qualquer profissional que trabalhe com avaliação neuropsicológica e reabilitação.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Boston sozinho pode diagnosticar demência?
NÃO. Boston é PARTE da bateria, não diagnóstico isolado. Escore baixo indica "déficit nomeação, investigar", mas não especifica QUAL demência (Alzheimer vs DFT vs outras) ou se é demência vs afasia primária vs depressão. Diagnóstico requer integração clínica + bateria completa + neuroimagem + exclusão reversíveis.
2. Como diferenciar "não lembro palavra" (Alzheimer) vs "não sei o que é" (DFT-vs)?
Perguntar FUNÇÃO/CARACTERÍSTICAS sem nomear: "Para que serve isso? Onde você encontra? Como usa?" Se descreve detalhadamente = conhecimento semântico OK, problema é ACESSO palavra (Alzheimer inicial, afasia anômica). Se não sabe descrever = perda CONHECIMENTO conceitual (DFT-vs). Pistas também diferenciam: Alzheimer melhora com pistas, DFT-vs não.
3. Pistas fonêmicas "facilitam demais" o teste?
Pistas são PARTE INTEGRAL do protocolo diagnóstico. Não é "facilitar", é DIFERENCIAR ONDE falha. Acerto espontâneo vs com pista semântica vs com pista fonêmica vs erro mesmo com pistas = padrões DIFERENTES clinicamente. Documentar separadamente cada condição fornece informação qualitativa rica.
4. Escolaridade baixa invalida o teste?
NÃO invalida mas requer normas ajustadas. Pessoas baixa escolaridade (<8 anos) têm exposição menor a palavras baixa frequência (esfinge, ábaco, tridente). Normas específicas existem. Importante: Padrão QUALITATIVO erros ainda informativo (parafasias semânticas, perseverações, perda semântica) independente escore bruto.
5. Posso usar Boston em afásicos severos?
Útil MAS adaptações necessárias. Afasia Wernicke severa: pode não compreender INSTRUÇÃO ("diga o nome"). Adaptar: apontar figura, perguntar "o que é?" sem instrução formal. Afasia Broca severa: pode levar MUITO tempo cada item (apraxia fala). Permitir latências maiores, não pressionar. Afasia global: Boston pode ser impossível mas TENTATIVA informa severidade (ex: não produz nenhum nome = gravíssimo).
6. Reteste: efeito aprendizagem é problema?
Efeito aprendizagem EXISTE mas menor que testes memória. Figuras não mudam, então pessoa pode "lembrar" nomes de administração anterior. Solução: Intervalo mínimo 6-12 meses entre retestes. OU usar versões abreviadas alternadas (30 itens pares vs 30 ímpares). Em demências progressivas, efeito aprendizagem MENOR que declínio real (escore cai apesar exposição prévia).
7. Diferença Boston vs fluência semântica (animais)?
Boston: Acesso lexical RECEPTIVO confrontação (vê, nomeia). Pistas visuais ajudam. Fluência: Busca lexical ATIVA espontânea (gera palavras sem pista visual). Exige estratégia busca, memória trabalho (lembrar quais já disse). Dissociação: Lesões frontais comprometem FLUÊNCIA mais que Boston (executivo). Lesões temporais comprometem AMBOS (semântico). Usar JUNTOS = mapa linguagem mais completo.
8. Versão reduzida (30 itens) é válida?
SIM, versões abreviadas existem e são úteis. Versão 30 itens (ímpares ou pares) reduz tempo aplicação (5-7min), útil triagens ou pacientes fatigáveis. Trade-off: Perde sensibilidade detectar déficits LEVES (menos itens = menos oportunidades detectar padrões). Para diagnóstico diferencial sutil ou pesquisa, preferir versão completa 60 itens.
Referências Técnicas
- Kaplan, E., Goodglass, H., & Weintraub, S. (2001). Boston Naming Test (2nd ed.). Austin, TX: Pro-Ed.
- Hodges, J. R., et al. (1992). Semantic dementia: Progressive fluent aphasia with temporal lobe atrophy. Brain, 115(6), 1783-1806.
- Goodglass, H., & Wingfield, A. (1997). Anomia: Neuroanatomical and cognitive correlates. San Diego: Academic Press.
- Mansur, L. L., et al. (2006). Teste de Nomeação de Boston: Desempenho de uma população de São Paulo. Pró-Fono Revista de Atualização Científica, 18(1), 13-20.
- Lezak, M. D., et al. (2012). Neuropsychological Assessment (5th ed.). New York: Oxford University Press.
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