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Repetição de Testes: Em Quanto Tempo e Como Lidar com Efeitos de Aprendizagem

Em diversos contextos da Avaliação Neuropsicológica, é necessário reaplicar testes ao mesmo paciente para monitorar evolução clínica, eficácia de intervenções ou até mesmo realizar um diagnóstico diferencial em momentos distintos. Apesar de ser uma prática comum, a repetição de testes traz questões importantes: qual o intervalo ideal para minimizar o efeito de aprendizagem? Como interpretar resultados quando o paciente já conhece parcialmente a tarefa?

Neste artigo, discutiremos:



  1. Os riscos e efeitos da repetição de testes.
  2. Critérios para definir um intervalo seguro entre as aplicações.
  3. Estratégias para minimizar impactos no desempenho.
  4. Casos práticos em que a reaplicação se mostra especialmente relevante.


Ao final, convidamos você a explorar outros conteúdos do blog da IC&C, como “Análise Qualitativa de Protocolos de Desenho: Técnicas Complementares à Análise Quantitativa” e “Fontes de Erro Comuns em Avaliações: Como Minimizar Viés de Aplicador e Ambiente”. Para aprofundar ainda mais seus conhecimentos, conheça o nosso Programa de Formação Avançada em intervenções cognitivas e comportamentais.


1. Por que a Repetição de Testes Pode Gerar Distorções?


  • Aprendizagem Específica
  • Quando o paciente já fez o teste antes, ele pode lembrar dos itens, da estrutura ou das estratégias para resolver as tarefas. Isso tende a inflar o desempenho na segunda aplicação, não refletindo apenas uma melhora genuína das funções cognitivas.
  • Exemplo: No Stroop Test, o indivíduo pode dominar mais rapidamente a tarefa de inibir a leitura e nomear cores, pois já conhece o formato do teste.
  • Motivação e Familiaridade
  • Em uma segunda aplicação, o paciente pode estar menos ansioso e mais confortável com o contexto da avaliação, impactando positivamente os resultados.
  • Por outro lado, se teve uma experiência ruim, pode se sentir desmotivado, afetando negativamente a performance.
  • Mudanças Contextuais
  • Entre uma aplicação e outra, podem ocorrer intervenções terapêuticas, medicações ou alterações no estado de saúde que influenciam o desempenho, criando variáveis adicionais a serem consideradas.


2. Critérios para Definir o Intervalo Ideal


2.1 Tempo Estabelecido por Normas de Validação


  • Alguns manuais de testes trazem recomendações sobre intervalos para reaplicação, baseando-se em estudos de estabilidade e curva de aprendizagem.
  • Por exemplo, para certos subtestes de QI, sugere-se um intervalo mínimo de 6 meses a 1 ano, dependendo da idade e do objetivo clínico.

2.2 Tipo de Teste e Natureza da Tarefa


  • Testes de Memória (ex.: RAVLT, WMS): Quando a demanda de recordação é alta, o efeito de aprendizagem pode ser forte — intervalos mais longos costumam ser indicados (6 meses ou mais).
  • Testes de Atenção ou Velocidade de Processamento (ex.: d2, TMT, CPT): Alguns estudos mostram que um período de 3 a 6 meses pode ser suficiente para atenuar a familiaridade, mas varia conforme a sensibilidade do teste.


2.3 Objetivo Clínico


  • Monitoramento de Reabilitação: Se há urgência em verificar progresso (p. ex., após intervenção intensiva em TDAH), pode-se aplicar novamente em intervalos menores (1-3 meses), porém interpretando com cautela os possíveis ganhos de familiaridade.
  • Diagnóstico Diferencial: Ao investigar declínios cognitivos progressivos (ex.: em demência), é comum repetir testes a cada 6 a 12 meses para observar mudanças no quadro.


3. Estratégias para Minimizar Efeitos de Aprendizagem


3.1 Alternar Versões Paralelas


  • Alguns instrumentos, como a Rey Auditory Verbal Learning Test (RAVLT) ou Stroop Test, possuem versões A, B, C que mantêm a mesma estrutura, mas com itens diferentes. Isso reduz a chance de o paciente simplesmente decorar respostas.
  • Caso não existam versões formalmente validadas, alguns profissionais criam ou adaptam itens, mas isso exige cuidado para manter equivalência e validade.


3.2 Uso de Testes Complementares


  • Em vez de repetir exatamente o mesmo instrumento, o avaliador pode combinar diferentes testes que avaliam domínios semelhantes.
  • Exemplo: Se o objetivo é medir atenção sustentada e o paciente já fez o CPT recentemente, pode-se optar pelo d2 ou outro teste de atenção para a segunda avaliação.


3.3 Explicar ao Paciente


  • Orientar o paciente de que não há “vantagem” em lembrar as respostas, pois o foco é compreender a evolução ou mudança genuína de habilidades.
  • Em contextos de baixa motivação, reforçar a importância de se empenhar novamente, mesmo que conheça parcialmente a tarefa.


3.4 Intervalos Adequados


  • Em geral, respeitar 6 meses ou mais antes de reaplicar instrumentos que sofrem forte influência de aprendizagem.
  • Se a reavaliação for inevitável antes desse prazo, registrar explicitamente no laudo a possibilidade de viés de aprendizagem, orientando a interpretação cautelosa.


4. Exemplos Práticos de Aplicação


  • Avaliação de Reabilitação Neuropsicológica
  • Um paciente com lesão cerebral faz uma bateria inicial, recebe intervenção por 3 meses e o clínico quer medir progresso. Alguns testes precisam ser repetidos antes de 6 meses. Nesse caso, o avaliador faz anotações detalhadas no relatório sobre a chance de efeito de aprendizagem, complementando com testes alternativos sempre que possível.
  • Monitoramento de Demência
  • A cada 12 meses, repete-se a Addenbrooke’s Cognitive Examination (ACE-III) para acompanhar evolução do quadro. O intervalo maior minimiza a lembrança de itens, e a própria progressão da demência tende a superar eventuais ganhos de familiaridade.
  • Situações Escolares
  • Crianças com suspeita de TDAH são reavaliadas a cada 6 meses para ver se a medicação está ajudando. Se a tarefa for de memória verbal e não houver versão alternativa validada, o profissional anota no laudo que o menor intervalo pode inflar resultados ligeiramente.


5. Conclusão e Próximos Passos


A repetição de testes é uma prática essencial em diversos cenários da avaliação neuropsicológica, mas deve ser planejada com cautela para evitar efeitos de aprendizagem que mascarem a real evolução do paciente. Fatores como intervalo de tempo, versões paralelas e estratégias complementares ajudam a reduzir esse viés, tornando os resultados mais fidedignos.

Para continuar se aperfeiçoando na prática de avaliação:


  1. Análise Qualitativa de Protocolos de Desenho: Técnicas Complementares à Análise Quantitativa
  2. Fontes de Erro Comuns em Avaliações: Como Minimizar Viés de Aplicador e Ambiente


Além disso, convidamos você a conhecer o Programa de Formação Avançada da IC&C onde abordamos metodologias para planejar a reaplicação de testes, escolher instrumentos alternativos e fazer interpretações embasadas, assegurando maior qualidade e precisão no acompanhamento clínico.


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Por Matheus Santos 25 de maio de 2026
Os testes de Fluência Verbal avaliam a capacidade de gerar palavras rapidamente sob restrições específicas.  Existem duas versões principais: Fluência Fonêmica (FAS - gerar palavras começando com letras específicas) e Fluência Semântica (Animais - gerar nomes de animais). Avaliam funções executivas, acesso lexical e linguagem, sendo sensíveis a lesões frontais (fonêmica) e temporais (semântica). Ficha Técnica NOME: Testes de Fluência Verbal - FAS e Animais EDITORA BRASIL: Domínio público / múltiplas fontes DISPONIBILIDADE BRASIL: Amplamente disponível POPULAÇÃO: Crianças (8+), adultos TEMPO: 3 minutos total (1 min cada letra/categoria)
Por Matheus Santos 25 de maio de 2026
O RAVLT (Rey Auditory Verbal Learning Test) é um dos testes mais utilizados para avaliar memória verbal episódica e aprendizagem. Desenvolvido por André Rey em 1964, o teste consiste em aprender uma lista de 15 palavras através de 5 apresentações repetidas, avaliando curva de aprendizagem, interferência e retenção após intervalo. É amplamente utilizado em avaliações de amnésia, demências, lesões temporais mediais e monitoramento declínio cognitivo. Ficha Técnica NOME: RAVLT - Teste Aprendizagem Auditivo-Verbal de Rey AUTOR: André Rey (1964) EDITORA BRASIL: Vetor Editora DISPONIBILIDADE BRASIL: Sim POPULAÇÃO: Adolescentes, adultos, idosos TEMPO: 15-20 minutos APROVAÇÃO SATEPSI: Sim
Por Matheus Santos 25 de maio de 2026
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Por Matheus Santos 21 de maio de 2026
O BAI (Beck Anxiety Inventory) é uma escala autoaplicável amplamente utilizada para avaliar a intensidade de sintomas ansiosos. Desenvolvido por Aaron Beck em 1988, o instrumento contém 21 itens focando predominantemente em sintomas somáticos e fisiológicos da ansiedade. A adaptação brasileira é realizada pela Casa do Psicólogo e está aprovada pelo SATEPSI para uso profissional no Brasil. Ficha Técnica NOME: BAI - Inventário de Ansiedade de Beck AUTOR: Aaron T. Beck (1988) EDITORA BRASIL: Hogrefe DISPONIBILIDADE BRASIL: Sim POPULAÇÃO: Adolescentes (13+) e adultos TEMPO: 5-10 minutos  APROVAÇÃO SATEPSI: Sim
Por Matheus Santos 21 de maio de 2026
A Figura Complexa de Rey é um dos testes neuropsicológicos mais utilizados mundialmente para avaliar habilidades visuoconstrutivas, memória visual e funções executivas. Desenvolvida por André Rey em 1941, a tarefa consiste em copiar uma figura geométrica complexa e posteriormente reproduzi-la de memória. O teste permite avaliar múltiplas funções cognitivas simultaneamente: percepção visual, planejamento, organização, memória visuoespacial e habilidades construtivas. Ficha Técnica NOME: Teste da Figura Complexa de Rey (Rey-Osterrieth Complex Figure Test - ROCF) AUTOR: André Rey (1941), padronização Paul-Alexandre Osterrieth (1944) EDITORA BRASIL: Casa do Psicólogo DISPONIBILIDADE BRASIL: Sim, manual e materiais disponíveis POPULAÇÃO: Crianças (a partir 5 anos), adolescentes, adultos, idosos TEMPO APLICAÇÃO: 10-15 minutos total (cópia + memória) TIPO: Aplicação individual, papel-lápis  APROVAÇÃO SATEPSI: Sim
Por Matheus Santos 21 de maio de 2026
BDI-II (O Inventário de Depressão de Beck – Segunda Edição, desenvolvido por Aaron Beck e colaboradores (1996), com adaptação brasileira pela Casa do Psicólogo (2011), é um instrumento autoaplicável amplamente reconhecido mundialmente para a avaliação rápida da intensidade dos sintomas depressivos. Composto por 21 itens, abrange sintomas cognitivos (como desesperança, autocrítica e ideação suicida), afetivos (tristeza, anedonia e choro), somáticos (fadiga, alterações no sono e apetite, e sintomas físicos) e comportamentais (agitação, retardo psicomotor e perda de interesse), fundamenta-se nos critérios diagnósticos do DSM-IV para o Transtorno Depressivo Maior. O respondente deve selecionar a afirmação (avaliada de 0 a 3 pontos para cada item) que melhor descreve como se sentiu nas ÚLTIMAS DUAS SEMANAS, resultando em uma pontuação total que varia de 0 a 63 pontos, interpretada conforme os pontos de corte estabelecidos (0-13 = depressão mínima, 14-19 = leve, 20-28 = moderada, 29-63 = grave). Assim, permite uma triagem rápida de episódios depressivos, monitoramento longitudinal dos sintomas ao longo do tratamento psicoterapêutico ou farmacológico, e avaliação da eficácia das intervenções através da comparação dos escores pré e pós-tratamento.  As vantagens do BDI-II incluem uma aplicação extremamente rápida (entre 5 a 10 minutos de autoaplicação), baixo custo (sendo um instrumento de domínio público no Brasil após a adaptação validada), boa aceitabilidade entre os pacientes (devido às questões claras e diretas) e uma extensa base de evidências psicométricas que demonstram validade e fidedignidade adequadas para a população brasileira (com alpha de Cronbach superior a 0,90 e correlações esperadas com outros instrumentos de avaliação da depressão). Por essas razões, o BDI-II torna-se uma ferramenta essencial na prática clínica de psicólogos e psiquiatras, tanto para a triagem inicial quanto para o acompanhamento sistemático da evolução da sintomatologia depressiva em pacientes atendidos ambulatorialmente.
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O WISC-V (Escala de Inteligência de Wechsler para Crianças - Quinta Edição), desenvolvido por David Wechsler e publicado originalmente em 2014 nos Estados Unidos, teve sua adaptação brasileira realizada pela Pearson Clinical/Casa do Psicólogo entre 2021 e 2022. Este instrumento é considerado o padrão-ouro na avaliação da inteligência de crianças e adolescentes com idades entre 6 anos e 0 meses até 16 anos e 11 meses, oferecendo uma medida abrangente do funcionamento cognitivo por meio de cinco índices principais: Índice de Compreensão Verbal (ICV), que mensura o raciocínio verbal, compreensão e conhecimento adquirido; Índice Visuoespacial (IVE), que avalia o raciocínio visuoespacial e a integração; Índice de Raciocínio Fluido (IRF), que mede o raciocínio indutivo/dedutivo e quantitativo; Índice de Memória Operacional (IMO), que avalia a memória de trabalho; e Índice de Velocidade de Processamento (IVP), que mensura a velocidade de processamento da informação visual. Esses índices são derivados de 10 subtestes principais e 5 suplementares, permitindo o cálculo do QI Total, que oferece uma estimativa global da capacidade intelectual e uma análise detalhada do perfil cognitivo, identificando forças e fraquezas específicas da criança, elemento crucial para o diagnóstico diferencial de dificuldades de aprendizagem (como dislexia e discalculia), superdotação, TDAH, deficiência intelectual, e no planejamento de intervenções educacionais individualizadas. A aplicação do WISC-V exige que seja realizada de forma individual e padronizada (com uma duração típica entre 60 a 90 minutos) por um psicólogo treinado, seguindo rigorosos protocolos que garantem a validade dos resultados. A correção resulta em escores padronizados (com média 100 e desvio-padrão 15 para o QI Total e índices; média 10 e desvio-padrão 3 para os subtestes), permitindo a comparação do desempenho da criança com grupos normativos da mesma faixa etária.  A interpretação é realizada em múltiplos níveis, começando pelo QI Total (indicador da capacidade geral), avançando para a análise dos índices específicos, que revelam um padrão único das habilidades cognitivas da criança e informam hipóteses clínicas relacionadas ao seu funcionamento neuropsicológico subjacente e às suas necessidades educacionais específicas.
Por Matheus Santos 17 de maio de 2026
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) para depressão, desenvolvida por Aaron Beck na década de 1960, fundamenta-se na observação clínica de que pacientes deprimidos tendem a apresentar padrões de pensamento sistematicamente negativos e distorcidos, os quais precedem e mantêm o humor depressivo. Essa abordagem consiste em um tratamento psicológico estruturado e baseado em evidências, que foca na identificação e modificação de cognições disfuncionais (pensamentos automáticos negativos sobre si mesmo, o mundo e o futuro, formando a tríade cognitiva negativa característico da depressão) e de padrões comportamentais desadaptativos (como inatividade, isolamento social e evitação de atividades prazerosas, os quais perpetuam a anedonia). A TCC utiliza técnicas específicas, incluindo reestruturação cognitiva (através do questionamento socrático sobre as evidências dos pensamentos negativos e a geração de alternativas equilibradas e realistas), ativação comportamental (com o agendamento sistemático de atividades prazerosas e de maestria, combatendo a inércia depressiva), monitoramento de pensamentos e emoções através de registros diários que revelam as conexões entre cognição e humor, experimentos comportamentais que testam a validade de predições catastróficas, e modificação de esquemas subjacentes (como crenças nucleares profundas, tais como "Sou inadequado" e "Não sou amável", desenvolvidas a partir de experiências adversas na infância). O tratamento é normalmente organizado em um protocolo estruturado de 12 a 20 sessões, incluindo uma fase inicial de avaliação e construção de uma relação terapêutica colaborativa, uma fase de intervenção ativa que aplica técnicas cognitivo-comportamentais focadas nos sintomas específicos identificados (como humor deprimido, anedonia, desesperança, inatividade e pensamentos suicidas, quando presentes), e uma fase de prevenção de recaída, que consolida as habilidades aprendidas e identifica sinais precoces de recorrência da depressão, desenvolvendo um plano de ação preventivo. A eficácia da TCC no tratamento da depressão é estabelecida por mais de 75 metanálises, as quais demonstram tamanhos de efeito grandes (d=0,70-0,90), comparáveis aos de medicamentos antidepressivos, e superiores a longo prazo, devido à aquisição de habilidades cognitivo-comportamentais que persistem após o tratamento, reduzindo o risco de recaída em 50% em comparação com pacientes que descontinuaram a medicação. Assim, a TCC é recomendada como primeira linha de tratamento para depressão leve a moderada em monoterapia e para depressão moderada a severa em combinação com medicação, conforme diretrizes internacionais (APA, NICE). Isso torna essencial para os profissionais de saúde mental compreenderem o modelo cognitivo da depressão e dominarem as técnicas específicas da TCC, a fim de oferecer tratamentos baseados em evidências que maximizem a recuperação funcional dos pacientes deprimidos.
Por Matheus Santos 17 de maio de 2026
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma abordagem psicoterapêutica bem estruturada e fundamentada em evidências, desenvolvida por Aaron Beck e Albert Ellis nas décadas de 1960. O que a distingue essencialmente de outras orientações terapêuticas são suas características específicas, que incluem um foco no presente e no futur o (trabalhando questões atuais e desenvolvendo habilidades para o futuro em vez de uma ampla exploração do passado), uma estrutura sistemática nas sessões (com uma agenda colaborativa, tarefas de casa definidas e mensuração objetiva do progresso, em contrapartida a sessões não-diretivas que fluem livremente), e um modelo teórico que liga cognições, emoções e comportamentos (onde os pensamentos influenciam as emoções e comportamentos, e as cognições disfuncionais são modificadas por técnicas específicas, ao invés de modelos psicodinâmicos que exploram o inconsciente e a transferência ou abordagens humanistas que focam na autorrealização). A TCC adota uma orientação voltada para a solução de problemas (identificando questões específicas e mensuráveis e aplicando técnicas direcionadas, em contraste com um enfoque mais amplo em insights e crescimento pessoal) e apresenta uma brevidade relativa (comumente de 12 a 20 sessões para transtornos frequentes, ao passo que a psicanálise tradicional pode prolongar-se por anos). Além disso, destaca-se sua ênfase no empirismo colaborativo (onde terapeuta e paciente testam hipóteses por meio de experimentos comportamentais, em oposição a interpretações do terapeuta ou reflexões não-diretivas). Essa abordagem contrasta especialmente com a psicanálise/psicodinâmica, que foca em conflitos inconscientes do passado por meio de interpretações de transferência e resistência ao longo de muitos anos de terapia, assim como com abordagens humanistas (como as de Rogers e Gestalt), que enfatizam aceitação incondicional e empatia para facilitar a autorrealização, em comparação com técnicas estruturadas de mudança. Inclusive se comparamos com as terapias cognitivas de terceira onda (como ACT e DBT), que diferem da TCC tradicional ao buscar não apenas a mudança no conteúdo das cognições, mas na relação que se estabelece com elas (como no caso da defusão e aceitação abordadas pela ACT) e na adição de validação dialética e regulação emocional intensa pela DBT, além das técnicas padrão da TCC. Compreender essas diferenças fundamentais é essencial para a escolha da terapia mais adequada de acordo com o transtorno específico (com a TCC apresentando forte evidência para ansiedade, depressão e TOC, a DBT sendo indicada para Borderline e a psicodinâmica oferecendo insights profundos sobre conflitos relacionais), as preferências do paciente (por exemplo, alguns podem preferir a estrutura da TCC enquanto outros optam pela exploração psicodinâmica ou acolhimento humanista) e os objetivos do tratamento (como busca por redução rápida de sintomas versus crescimento pessoal a longo prazo). É importante reconhecer que múltiplas abordagens podem ser eficazes por meio de mecanismos distintos e que uma integração eclética e responsiva pode proporcionar a flexibilidade terapêutica necessária para otimizar resultados individualizados.
Por Matheus Santos 17 de maio de 2026
A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT - Acceptance and Commitment Therapy) , desenvolvida por Steven Hayes e seus colegas em 1999 , representa uma abordagem terapêutica de terceira onda dentro das terapias cognitivo-comportamentais , com foco no desenvolvimento da flexibilidade psicológica . Esta flexibilidade refere-se à capacidade de estar plenamente presente e contatar experiências internas desafiadoras , como pensamentos, emoções e sensações, sem recorrer à esquiva experiencial, ao invés de tentar mudá-las ou controlá-las. Simultaneamente, busca-se tomar ações direcionadas a valores pessoais significativos. A ACT operacionaliza essa flexibilidade por meio de seis processos centrais interconectados, apresentados no modelo Hexaflex , que inclui aceitação (a abertura voluntária à experiência interna em contraste com a esquiva), defusão cognitiva (a observação de pensamentos como eventos mentais passageiras em vez de verdades absolutas), o eu-contexto (a perspectiva do eu como um observador que transcende o conteúdo da experiência), o contato com o momento presente (uma atenção plena flexível no aqui e agora em oposição à ruminação sobre o passado e à preocupação com o futuro), valores clarificados (as direções de vida escolhidas livremente que refletem as importâncias mais profundas) e ação comprometida (padrões de ação orientados por valores, mesmo diante de barreiras psicológicas). Esse enfoque distingue-se fundamentalmente da terapia cognitivo-comportamental tradicional de primeira onda, que se concentra na mudança do conteúdo das cognições disfuncionais por meio da reestruturação cognitiva que questiona a validade de pensamentos negativos. Em contrapartida, a ACT propõe uma mudança na relação com as cognições (e não no conteúdo delas) , utilizando a defusão para reconhecer os pensamentos como eventos mentais não literais, permitindo, assim, uma ação orientada por valores, independentemente da presença de pensamentos e emoções difíceis. A aplicação da ACT fundamenta-se na Teoria da Moldura Relacional (Relational Frame Theory - RFT) , que explica como a linguagem e a cognição humanas geram sofrimento psicológico por meio de processos simbólicos verbais, como fusão cognitiva, raciocínios distorcidos e esquiva experiencial. Isso torna a ACT uma abordagem paradoxal, pois seu objetivo não é eliminar sintomas (como ansiedade, tristeza ou dor), mas sim aumentar a disposição para experimentá-los enquanto se avança em direção a uma vida significativa e orientada por valores. A eficácia da ACT é particularmente evidente em condições onde o controle ou a esquiva dos sintomas perpetuam o problema, como na ansiedade generalizada, dor crônica ou depressão recorrente. Esta eficácia é corroborada por mais de 300 ensaios clínicos randomizados, que demonstram a eficácia da ACT com tamanhos de efeito moderados a grandes (d=0,50-0,80) , sendo comparável à terapia cognitivo-comportamental tradicional, mas com a vantagem adicional de apresentar uma menor taxa de recaída a longo prazo em condições crônicas.
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