Por Matheus Santos
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31 de dezembro de 2025
Ao longo do século XX, a psicopatologia entra em uma nova fase. Após a sofisticação metodológica introduzida por Karl Jaspers , discutida em Karl Jaspers e a sofisticação do método psicopatológico , torna-se evidente que a clínica precisava de algo além da descrição e da compreensão individual: era necessário padronizar a linguagem diagnóstica . A expansão dos sistemas de saúde, o crescimento da pesquisa científica e a necessidade de comunicação entre profissionais, países e instituições levaram à criação dos grandes sistemas classificatórios internacionais . É nesse contexto que surgem a CID e o DSM , pilares da chamada era dos manuais. Por que surgiram os sistemas classificatórios? A criação de manuais diagnósticos não foi motivada por ambição teórica, mas por necessidades práticas. Entre elas: padronizar a comunicação clínica permitir comparabilidade entre pesquisas orientar políticas públicas de saúde organizar dados epidemiológicos facilitar decisões administrativas e legais Sem uma linguagem comum, seria impossível acumular conhecimento científico em larga escala. Esse movimento dialoga diretamente com a evolução histórica apresentada no texto pilar Psicopatologia, diagnóstico e classificação dos transtornos psiquiátricos . A CID e a psiquiatria no contexto da saúde pública A Classificação Internacional de Doenças , conhecida como CID, é desenvolvida e mantida pela Organização Mundial da Saúde . Diferentemente do DSM, a CID não é um manual exclusivo de psiquiatria, mas uma classificação geral de todas as doenças humanas . Os transtornos mentais estão organizados no chamado Capítulo F , que reúne condições psiquiátricas e do neurodesenvolvimento. Evolução histórica da CID A trajetória da CID revela um fenômeno central da psicopatologia contemporânea: a expansão progressiva das categorias diagnósticas . versões iniciais continham poucas categorias psiquiátricas o CID-10 , publicado em 1993, já apresentava centenas de códigos específicos o CID-11 , mais recente, refina ainda mais essas categorias, incorporando avanços da pesquisa e mudanças conceituais Esse crescimento reflete tanto o aumento do conhecimento quanto a complexificação da prática clínica, mas também levanta questões críticas sobre os limites da classificação. O DSM e a construção de uma linguagem psiquiátrica específica O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais , o DSM, é elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria e tem como foco exclusivo os transtornos mentais. Sua história é marcada por mudanças conceituais profundas. DSM-I e a influência psicodinâmica O DSM-I , publicado em 1952, reflete fortemente o pensamento psicodinâmico dominante à época. Os transtornos eram descritos de forma ampla, com linguagem influenciada pela psicanálise, e o manual continha 106 diagnósticos . Nesse momento histórico, a classificação ainda estava intimamente ligada a modelos explicativos. DSM-III e a virada neo-kraepeliniana A grande ruptura ocorre com o DSM-III , publicado em 1980. Esse manual inaugura a chamada virada neo-kraepeliniana , caracterizada por: critérios operacionais explícitos foco na confiabilidade diagnóstica abandono de teorias etiológicas específicas O DSM-III substitui o termo doença mental por transtorno mental, reconhecendo explicitamente a incerteza etiológica . O número de categorias sobe para cerca de 275 diagnósticos . Essa mudança teve impacto decisivo na pesquisa clínica e na prática profissional, mas também inaugurou debates intensos sobre reducionismo e fragmentação. DSM-5 e a reorganização contemporânea O DSM-5 , publicado em 2013, aprofunda esse movimento. Entre suas principais mudanças estão: abandono do sistema multiaxial reorganização de agrupamentos diagnósticos deslocamento de alguns transtornos, como o TOC, que deixa o grupo dos transtornos de ansiedade O número de diagnósticos ultrapassa 300 categorias , intensificando o debate sobre inflação diagnóstica e medicalização da experiência humana. Função dos manuais: ferramenta, não teoria Um ponto central para compreender corretamente a CID e o DSM é reconhecer sua função instrumental . Esses sistemas não foram criados para explicar a origem dos transtornos mentais, mas para organizar e padronizar a comunicação . Eles são ferramentas para: pesquisa ensino gestão em saúde comunicação entre profissionais Não são teorias da mente nem substitutos do raciocínio clínico, distinção fundamental já anunciada por Karl Jaspers . Principais críticas aos sistemas classificatórios Apesar de sua utilidade, a CID e o DSM acumulam críticas consistentes ao longo das últimas décadas. Entre as principais estão: inflação diagnóstica , com crescimento contínuo do número de categorias alta comorbidade , em que um mesmo paciente se encaixa em múltiplos diagnósticos medicalização da normalidade , transformando variações humanas em transtornos ilusão de categorias discretas , que não refletem a complexidade clínica real Essas críticas reforçam a necessidade de integrar os manuais a um raciocínio clínico mais amplo, como discutido em Como desenvolver raciocínio clínico em TCC . “Os pacientes não leem os manuais” A frase frequentemente atribuída à prática clínica resume o limite essencial da era dos manuais: os pacientes não se apresentam em categorias fechadas . O sofrimento psíquico é vivido de forma singular, atravessado por história de vida, contexto cultural, relações e processos biológicos. Os manuais ajudam a nomear, mas não substituem a escuta, a observação e a formulação clínica. Essa constatação conecta diretamente a era dos manuais às abordagens contemporâneas que buscam integrar diagnóstico, processos psicológicos e intervenção, como discutido em TCC baseada em processos . Considerações finais A CID e o DSM representam conquistas importantes da psiquiatria moderna. Sem eles, a pesquisa científica e a organização dos sistemas de saúde seriam inviáveis. No entanto, sua força está na padronização, não na explicação. Compreender seus limites é tão importante quanto conhecer seus critérios. A prática clínica ética exige que os manuais sejam utilizados como ferramentas auxiliares , e não como substitutos do pensamento clínico. Formação crítica em diagnóstico e psicopatologia Se você deseja desenvolver um raciocínio clínico sólido, capaz de utilizar CID e DSM sem reducionismos, conheça a Formação Permanente do IC&C . E para compreender como diagnóstico, classificação e clínica se articulam na prática contemporânea, assista ao webinário gratuito com a Dra Judith Beck e Vivian Bueno .