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Guia Prático: Como Usar o Trail Making Test na Clínica e na Pesquisa
O Trail Making Test (TMT) é um dos instrumentos neuropsicológicos mais utilizados no mundo — e por boas razões. Em menos de 10 minutos, fornece informações sobre velocidade de processamento, atenção visual, rastreamento visuomotor e, de forma única, flexibilidade cognitiva e alternância mental.
É sensível a lesões frontais, envelhecimento, demências, TCE e TDAH. É gratuito, de fácil aplicação, e tem robustez psicométrica demonstrada em décadas de pesquisa.
Este guia apresenta o TMT com a profundidade que a prática clínica exige: scripts literais de administração, sistema completo de pontuação e interpretação, normas brasileiras de referência, padrões específicos por condição clínica, erros comuns a evitar, e casos clínicos com análise integrada.
O Que o TMT Avalia: Bases Neuropsicológicas
O TMT não é um teste único — é um instrumento de dois componentes que, em conjunto, permitem dissecar o funcionamento cognitivo com precisão cirúrgica.
A Parte A exige que o paciente conecte números de 1 a 25 em ordem crescente, o mais rápido possível.
Parece simples — e é. O que torna a Parte A clinicamente valiosa é exatamente sua simplicidade: ela avalia velocidade de processamento psicomotor e atenção visual sustentada com demanda mínima de funções executivas.
É o "baseline" visuomotor do paciente.
A Parte B exige conectar números E letras em alternância (1-A-2-B-3-C...).
Aqui a demanda cognitiva aumenta radicalmente: o paciente precisa manter duas sequências ativas simultaneamente, alternar entre elas de forma flexível, e inibir a tendência de seguir apenas uma sequência.
Isso avalia flexibilidade cognitiva, atenção dividida, memória de trabalho e controle inibitório — componentes centrais das funções executivas.
A métrica mais poderosa do TMT é a razão B/A — o tempo da Parte B dividido pelo tempo da Parte A.
Essa razão isola a contribuição executiva da flexibilidade cognitiva, controlando a velocidade psicomotora basal do paciente. Um paciente lento em ambas as partes tem velocidade reduzida.
Um paciente com razão B/A muito elevada tem comprometimento específico de alternância executiva.
Scripts Exatos de Administração
A validade do TMT depende diretamente da padronização na administração. Pequenas variações nas instruções alteram o desempenho. Use os scripts abaixo literalmente.
Materiais necessários:
- Folha de demonstração (Parte A: números 1–8; Parte B: números 1–4 e letras A–D)
- Folha de teste Parte A (números 1–25 distribuídos aleatoriamente)
- Folha de teste Parte B (números 1–13 e letras A–L distribuídos aleatoriamente)
- Lápis (SEM borracha — erros não são apagados, são registrados)
- Cronômetro
Script — Fase de Demonstração (Parte A):
"Nesta folha há números de 1 a 8. Quero que você desenhe uma linha conectando os números em ordem, do 1 ao 8, o mais rápido possível. Comece pelo número 1, depois vá ao 2, depois ao 3, e assim por diante. Não levante o lápis do papel. Pronto para demonstrar?"
[Mostrar na folha de demonstração. Quando o paciente completar:] "Exatamente assim. Agora faremos a mesma coisa, mas com uma folha maior com números de 1 a 25."
Script — Administração Formal (Parte A):
"Nesta folha há números de 1 a 25. Quero que você conecte os números em ordem, do 1 ao 25, o mais rápido possível, sem levantar o lápis do papel. Quando estiver pronto, diga 'começar'. Alguma dúvida?"
[Iniciar cronômetro quando o paciente tocar o número 1. Parar quando tocar o 25.]
Se o paciente cometer erro: interrompa imediatamente — "Espere — há um erro aqui [apontar]. Volte para o último número correto e continue." O cronômetro continua rodando. Registre a localização e o tipo do erro.
Script — Fase de Demonstração (Parte B):
"Agora é diferente. Nesta folha há números E letras. Quero que você conecte alternando entre números e letras em ordem: 1, depois A, depois 2, depois B, depois 3, depois C... e assim por diante. Começa sempre pelo número 1. Deixa eu te mostrar."
[Demonstrar na folha de demonstração até o paciente confirmar que entendeu. Verificar explicitamente:] "Entendeu? Números e letras alternando em ordem. Pode tentar aqui na demonstração?"
Script — Administração Formal (Parte B):
"Ótimo. Agora a folha real, com números e letras maiores. O mesmo princípio: alternar entre números e letras em ordem, o mais rápido possível, sem levantar o lápis. Pronto?"
[Iniciar cronômetro quando o paciente tocar o 1. Parar quando tocar o L.]
Erros comuns de administração a evitar:
- ❌ Não fazer a demonstração — especialmente a Parte B: pacientes que não entendem a alternância invalidam o teste
- ❌ Dar o tempo verbal ao paciente durante a aplicação ("vai bem", "quase lá") — altera motivação e ritmo
- ❌ Deixar o paciente apagar erros — o traçado original é dado qualitativo importante
- ❌ Parar o cronômetro durante correção de erros — o tempo de correção faz parte do escore
- ❌ Aplicar a Parte B antes de registrar completamente a Parte A — anote o tempo e erros antes de passar
Sistema de Pontuação e Registros
O escore primário do TMT é o tempo em segundos para completar cada parte. Há um limite máximo de 300 segundos (5 minutos) por parte — se o paciente não completar nesse tempo, registra-se 300s e anota-se como "não completou".
Além do tempo, registre:
- Número de erros por parte (sequência incorreta, pular elemento, letra/número errado)
- Localização dos erros (início, meio ou final da sequência — padrão relevante)
- Comportamento observado: parou e olhou em volta, verbalizou dificuldade, demonstrou frustração
- Estratégia visível: varredura sistemática vs. aleatória, impulsividade nos primeiros elementos
Índices derivados clinicamente úteis:
- Razão B/A = Tempo B ÷ Tempo A → isola custo executivo da alternância (normativo: 2,0–3,0 para adultos)
- Diferença B−A = Tempo B − Tempo A em segundos → alternativa linear à razão
- Taxa de erro = erros ÷ elementos totais × 100 → acima de 10% é clinicamente relevante
Normas Brasileiras de Referência
A interpretação do TMT exige normas ajustadas para idade e escolaridade. Os valores abaixo são baseados nos estudos de normatização brasileira (Tombaugh 2004 adaptado; Bezdicek 2012; dados normativos brasileiros publicados por Spreen & Strauss 1998 e estudos locais de Figueiredo e Nascimento):
| Grupo | TMT-A (seg.) média ±DP | TMT-B (seg.) média ±DP | Razão B/A esperada |
|---|---|---|---|
| Adultos 20–39a, escolaridade ≥9 anos | 25 ± 9 | 55 ± 18 | 2,0–2,5 |
| Adultos 40–59a, escolaridade ≥9 anos | 32 ± 11 | 72 ± 25 | 2,1–2,6 |
| Idosos 60–69a, escolaridade ≥9 anos | 42 ± 15 | 95 ± 35 | 2,2–2,7 |
| Idosos 70–79a, escolaridade ≥9 anos | 56 ± 20 | 130 ± 50 | 2,3–2,8 |
| Adultos 20–59a, escolaridade 4–8 anos | 38 ± 14 | 90 ± 35 | 2,2–2,8 |
| Idosos 60–79a, escolaridade 4–8 anos | 65 ± 25 | 160 ± 60 | 2,4–3,0 |
Critérios de comprometimento (referência clínica):
- Desempenho abaixo de −1,5 DP da norma para o grupo = comprometimento limítrofe
- Desempenho abaixo de −2,0 DP = comprometimento clinicamente significativo
- Razão B/A acima de 4,0 = comprometimento de alternância executiva independente do tempo absoluto
- Parte A dentro da norma + Parte B muito lenta = déficit executivo específico (não lentidão geral)
Interpretação Integrada: O Que Cada Padrão Significa
Padrão 1 — Ambas as partes lentas, razão B/A normal (2,0–3,0)
Interpretação: Lentidão psicomotora global. A velocidade de processamento está comprometida, mas a capacidade de alternância executiva está proporcionalmente preservada. Sugere lentificação difusa, comum em depressão, hipotireoidismo, medicações sedativas, fadiga crônica, TCE difuso leve, ou envelhecimento acelerado.
Padrão 2 — Parte A normal, Parte B muito lenta, razão B/A elevada (≥4,0)
Interpretação: Comprometimento específico de alternância executiva com velocidade psicomotora preservada. Padrão altamente sugestivo de disfunção frontal-executiva. Frequente em demências frontais (DFT), lesões frontais focais, TDAH adulto, e fases intermediárias do Alzheimer quando o comprometimento começa a atingir circuitos frontais. Ver funções executivas.
Padrão 3 — Ambas as partes muito lentas, razão B/A elevada
Interpretação: Comprometimento difuso com componente executivo adicional. Frequente em demências avançadas, TCE grave, encefalopatias metabólicas, e comprometimento cognitivo significativo de múltiplos domínios. Requer avaliação neuropsicológica completa com bateria ampliada.
Padrão 4 — Erros frequentes com tempo preservado
Interpretação: Impulsividade com monitoramento reduzido. O paciente é rápido mas comete erros por não inibir respostas precipitadas. Perfil frequente no TDAH (especialmente subtipo hiperativo-impulsivo), lesões orbitofrontais, e mania. Velocidade sem precisão.
Padrão 5 — Erros frequentes no início da Parte B, melhora ao longo da tarefa
Interpretação: Dificuldade na fase de "set mental shifting" — transição do modo de Parte A para o modo de Parte B. Após estabelecer o padrão de alternância, o desempenho melhora. Sugere inércia cognitiva, dificuldade de flexibilidade inicial, comum em depressão e lesões subcorticais.
Padrões por Condição Clínica Específica
Doença de Alzheimer
Em fases iniciais, a Parte A pode estar dentro da norma enquanto a Parte B já mostra lentidão e aumento na razão B/A — refletindo o comprometimento de circuitos frontoparietal antes que a lentidão global se instale.
Com a progressão, ambas as partes deterioram e os erros aumentam. A combinação TMT com rastreamento cognitivo aumenta a sensibilidade diagnóstica.
TDAH no Adulto
Padrão característico: Parte A frequentemente dentro da norma (atenção focada em tarefa simples); Parte B lenta com erros de alternância (dificuldade de manter dois sets ativos e inibir perseveração em uma sequência). Razão B/A elevada.
Importante: o TDAH adulto também pode mostrar variabilidade intra-tarefa (rápido no início, lento no final por fadiga atencional). Ver TDAH no adulto.
TCE (Traumatismo Cranioencefálico)
Em TCE difuso moderado-grave, ambas as partes ficam comprometidas com razão B/A variável dependendo do grau de comprometimento frontal associado. Em TCE leve, a Parte B frequentemente é o indicador mais sensível — pode ser o único teste com desempenho fora da norma. A recuperação ao longo do tempo no TMT é um bom indicador de melhora neurológica.
AVC com Comprometimento Frontal
AVC em território frontal esquerdo ou nos circuitos fronto-subcorticais tipicamente compromete a Parte B mais do que a Parte A, com razão B/A muito elevada. AVC hemisfério direito pode comprometer a Parte A mais visivelmente (por heminegligência espacial dificultando o rastreamento visual da folha) com a Parte B comparativamente menos afetada.
Depressão Maior
Lentidão psicomotora global com razão B/A normal ou levemente elevada. A lentidão no TMT em depressão é proporcional à gravidade dos sintomas depressivos e tende a melhorar com tratamento eficaz. Diferente de lesão frontal, onde a razão B/A permanece elevada mesmo após melhora do humor. Essa dissociação tem valor diagnóstico diferencial.
Envelhecimento Normal
Lentidão progressiva em ambas as partes com razão B/A relativamente estável. O idoso saudável é mais lento, mas a proporção de custo executivo não aumenta dramaticamente. Quando a razão B/A sobe abruptamente em idoso que antes tinha padrão normal, é sinal de alerta para comprometimento cognitivo incipiente justificando rastreamento ampliado.
Análise Qualitativa: Além do Tempo
O tempo é o escore principal, mas a análise qualitativa do traçado fornece informações que os números não capturam:
- Padrão de varredura: O paciente usa varredura sistemática (linha por linha da folha) ou busca aleatória? Busca aleatória com tempo longo sugere déficit de estratégia de rastreamento visual
- Localização dos erros: Erros no início (impulsividade, não leu a instrução completamente); erros no meio (falha de manutenção de set); erros no final (fadiga atencional)
- Comportamento nos erros: O paciente percebe o erro imediatamente (monitoramento preservado) ou continua sem perceber (monitoramento comprometido)?
- Hesitações: Pausas longas em determinados pontos da Parte B (ex: na transição de letras para números) indicam onde o custo da alternância é maior
- Perseveração: Paciente que tende a continuar na sequência numérica ignorando as letras — sinal de perseveração executiva
TMT em Contexto de Bateria Neuropsicológica
O TMT é mais informativo quando integrado a outros instrumentos. Algumas combinações clinicamente poderosas:
TMT + Stroop: Ambos avaliam controle inibitório e flexibilidade, mas por vias diferentes (visuomotora vs. verbal). Comprometimento em ambos reforça déficit executivo frontal. Comprometimento isolado no TMT-B mas não no Stroop pode sugerir déficit específico de alternância de set vs. inibição de resposta dominante.
TMT + RAVLT: Combinação clássica para rastreio de Alzheimer vs. depressão. Alzheimer: RAVLT comprometido + TMT-B comprometido. Depressão: ambos podem estar lentos/reduzidos, mas RAVLT melhora com pistas (recuperação preservada) e TMT normaliza com remissão do quadro. Ver RAVLT na avaliação neuropsicológica.
TMT + Digit Span: Ambos avaliam funções executivas e memória de trabalho, mas Digit Span é mais sensível ao componente de armazenamento fonológico e TMT ao componente visuomotor-executivo. Dissociação entre eles ajuda a localizar o déficit.
TMT + Fluência Verbal: Fluência semântica avalia memória semântica e organização categorial; TMT-B avalia alternância executiva. Comprometimento de fluência semântica com TMT-B preservado aponta para Alzheimer (temporal). Comprometimento de TMT-B com fluência semântica preservada aponta para disfunção executiva frontal. Ver fluência verbal.
Casos Clínicos com Análise Integrada
Caso 1 — Roberto, 68 anos, Queixa de Memória Progressiva
Apresentação: Aposentado, escolaridade 12 anos, queixa de "memória ruim" há 18 meses. Filho relata que repete perguntas e esquece compromissos. Faz tudo sozinho, mas mais lentamente.
Resultados TMT:
- Parte A: 78 segundos (norma para 68a/12 anos: 42 ± 15s → z = +2,4 → comprometimento)
- Parte B: 245 segundos, 4 erros de alternância (norma: 95 ± 35s → z = +4,3 → comprometimento severo)
- Razão B/A: 3,1 (levemente elevada para o grupo)
Análise qualitativa: Parte A lenta mas sem erros — atenção focada preservada. Parte B com erros de alternância (continuou na sequência numérica por duas vezes ignorando as letras) e hesitações longas nas transições. Não percebeu dois dos quatro erros imediatamente.
Interpretação integrada com bateria: RAVLT T1=4, T5=7, recall tardio=2 (taxa esquecimento >70%). Fluência semântica=11 palavras (muito abaixo para escolaridade). TMT-A comprometida + TMT-B comprometida com erros de perseveração + RAVLT com consolidação severamente comprometida + fluência semântica muito reduzida = padrão altamente sugestivo de Doença de Alzheimer fase inicial-moderada. Encaminhar para avaliação neurológica e neuroimagem.
Caso 2 — Felipe, 34 anos, Dificuldades no Trabalho Pós-TCE
Apresentação: Executivo, escolaridade 16 anos, TCE moderado em acidente de carro há 5 meses. Retornou ao trabalho mas relata "não consegue mais fazer duas coisas ao mesmo tempo" e "fica confuso em reuniões longas". AVDs preservadas.
Resultados TMT:
- Parte A: 28 segundos (norma para 34a/16 anos: 25 ± 9s → z = +0,3 → normal)
- Parte B: 98 segundos, 2 erros (norma: 55 ± 18s → z = +2,4 → comprometimento moderado)
- Razão B/A: 3,5 (elevada — norma esperada: 2,0–2,5)
Análise qualitativa: Parte A normal — velocidade psicomotora e atenção focada preservadas. Parte B: varredura visual adequada, mas dois erros de perseveração (continuou na sequência de letras esquecendo retornar para números). Percebeu os erros imediatamente após cometê-los (monitoramento preservado). Hesitações marcadas em transições de conjunto (número→letra).
Interpretação integrada: Padrão de comprometimento executivo específico com velocidade psicomotora preservada — consistente com impacto frontal seletivo do TCE. A queixa funcional de "não consigo fazer duas coisas ao mesmo tempo" tem correlato neuropsicológico direto na razão B/A elevada. Prognóstico favorável com reabilitação cognitiva focada em estratégias de memória de trabalho e alternância de tarefas. Reavaliação em 6 meses.
TMT na Pesquisa: Pontos de Atenção Metodológicos
Para uso do TMT em pesquisa, algumas considerações são essenciais:
- Efeito de aprendizagem: O TMT melhora com reavaliações (especialmente na Parte A). Para estudos longitudinais, usar formas alternativas quando disponíveis ou considerar o efeito de prática na análise
- Transformação dos dados: Os tempos do TMT têm distribuição assimétrica positiva — análises estatísticas paramétricas exigem transformação logarítmica dos escores
- Controle de variáveis: Idade, escolaridade e velocidade psicomotora devem sempre ser controladas. A razão B/A ou diferença B−A parcialmente controla velocidade, mas não completamente
- Versões digitais: Versões computadorizadas do TMT oferecem métricas adicionais (tempo de movimento, tempo de decisão, velocidade de traçado) mas as normas diferem das versões em papel
O TMT integra protocolos de avaliação neuropsicológica baseados em evidências como o MoCA, ACE-III e baterias como o CERAD-Plus. Para uma visão abrangente de instrumentos neuropsicológicos disponíveis, incluindo ferramentas gratuitas, veja o guia completo de instrumentos de avaliação neuropsicológica.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. O TMT pode ser aplicado por qualquer psicólogo ou exige especialização em neuropsicologia?
A aplicação do TMT pode ser feita por psicólogos com treinamento adequado no instrumento. A interpretação clínica dentro de contexto de avaliação neuropsicológica, especialmente para diagnóstico diferencial de demências e lesões cerebrais, exige formação especializada em neuropsicologia. A aplicação isolada sem contexto de bateria tem valor limitado.
2. Posso aplicar o TMT em pacientes com baixa escolaridade ou analfabetos?
A Parte A é aplicável a pacientes com qualquer nível de escolaridade desde que reconheçam números. A Parte B exige que o paciente conheça o alfabeto — não é aplicável a analfabetos funcionais. Para populações de muito baixa escolaridade, use normas específicas e interprete com cautela. Considere alternativas como o Teste do Desenho do Relógio para rastreio quando há limitação de escolaridade.
3. Qual a diferença clínica entre usar o tempo total vs. a razão B/A?
O tempo total de cada parte indica o desempenho absoluto. A razão B/A isola o componente executivo controlando a velocidade basal. Para diagnóstico diferencial entre lentidão geral (ex: depressão) e comprometimento executivo específico (ex: lesão frontal), a razão B/A é mais informativa. Paciente com Parkinson pode ter ambas as partes lentas com razão B/A normal — a lentidão é motora, não executiva.
4. Qual o impacto de deficiências visuais no TMT?
Déficits de acuidade visual que não foram corrigidos adequadamente comprometem especialmente a Parte B (mais elementos para rastrear). Sempre verifique se o paciente está usando óculos adequados e se consegue ver claramente a folha antes de aplicar. Em pacientes com heminegligência (frequente pós-AVC de hemisfério direito), o padrão de erros concentrado no lado esquerdo da folha é clinicamente informativo — não apenas um artefato.
5. Como interpretar quando o paciente se recusa a continuar ou para no meio do teste?
Registre o tempo até a interrupção e quantos elementos foram completados. Explore o motivo: ansiedade ("não estou conseguindo"), fadiga, confusão com a tarefa, ou desistência. Recusa após poucos elementos pode sugerir anosognosia (dificuldade de perceber o próprio comprometimento e frustração ao perceber na tarefa) ou ansiedade de desempenho. Documente comportamentalmente e considere o dado qualitativo.
6. O TMT é sensível para Comprometimento Cognitivo Leve (CCL)?
A Parte B é mais sensível ao CCL do que a Parte A, especialmente o CCL de domínio múltiplo ou com componente executivo. No CCL amnéstico puro (mais típico de pré-Alzheimer), o RAVLT e outros testes de memória episódica podem ser mais sensíveis que o TMT. A combinação dos dois instrumentos aumenta a sensibilidade para detecção precoce.
7. Posso usar o TMT para monitoramento longitudinal de pacientes em reabilitação?
Sim, com atenção ao efeito de prática (melhora por familiaridade com o teste). Para monitoramento confiável, aplique nas mesmas condições (horário, ambiente, avaliador), registre o número de avaliações anteriores, e use diferenças clinicamente significativas (≥1,5 DP da variabilidade de reteste) como critério de mudança real vs. flutuação de mensuração. O TMT é sensível a mudanças em reabilitação de TCE e AVC.
8. O TMT diferencia demência de depressão no idoso?
Parcialmente. Ambas as condições comprometem o TMT, mas o padrão diferencia: na depressão, há lentidão proporcional com razão B/A relativamente preservada, e o desempenho melhora com tratamento eficaz. Na demência, o comprometimento persiste e progressivo, e a razão B/A tende a se elevar à medida que os circuitos frontais são comprometidos. A combinação com testes de memória episódica (especialmente análise de recall tardio e reconhecimento) aumenta muito a precisão do diagnóstico diferencial.
Conclusão
O Trail Making Test é uma das ferramentas mais eficientes da avaliação neuropsicológica: custo zero, administração rápida, e informação clínica de alto valor. Mas sua eficácia depende inteiramente de administração padronizada, interpretação com normas adequadas, e integração em contexto de bateria.
Dominar o TMT é saber extrair, dos dois traçados do paciente, uma janela para seu processamento visuomotor, sua velocidade de processamento, e — de forma única — sua capacidade de alternância executiva. Esses dados, interpretados em conjunto com avaliação neuropsicológica baseada em evidências, orientam diagnósticos, planejamentos de reabilitação, e laudos com precisão.
Para aprofundar sua formação em avaliação neuropsicológica com supervisão de casos, discussão de baterias e interpretação clínica integrada, conheça a Formação Permanente do IC&C.
E se ainda não assistiu ao webinário gratuito com a Dra. Judith Beck, é uma oportunidade de aprender como intervenções cognitivo-comportamentais e avaliação neuropsicológica se integram na prática clínica de alto nível.
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